Evolução do homem através de erros humanos para a verdade divina.
A história do Filho Pródigo é, quase sempre, apresentada exclusivamente
como a parábola clássica da misericórdia de Deus para com o pecador
penitente. Oradores e escritores fazem dela um poema melodramático e
sentimental do amor de um Pai que recebe de braços abertos um filho
ingrato que, finalmente, se arrepende dos seus desvarios e regressa à
casa paterna. Esse pai misericordioso é Deus, e o filho pródigo é
qualquer pecador que se converte.
Não é intenção nossa excluir totalmente essa interpretação comovente.
Entretanto, à luz do texto original do primeiro século, não cremos que
seja esta quintessência, o alfa e ômega da história narrada por Jesus.
Por entre as linhas aparece algo infinitamente mais profundo e sublime,
mais cósmico e ontológico que esse drama do amor paterno e da humanidade
filial.
A história do filho pródigo – que, no Evangelho, não é chamada parábola –
é o drama da evolução ascensional do homem e aepopéia multimilenar da
própria humanidade. Podemos até afirmar que, nessa narrativa, atingiu o
espírito do Nazareno as maisexcelsas culminâncias da sua visão cósmica
sobre o homem individual e sobre a humanidade universal.
A fim de compreendermos devidamente o poema cósmico do filho pródigo,
devemos, acima de tudo, remontar ao texto grego do primeiro século, nem
sempre fielmente reproduzido em nossas traduções.
No texto grego original de Lucas – o único evangelista que refere o fato
e que escreveu diretamente em língua grega – lemos o seguinte: “Um pai
tinha dois filhos. Disse-lhe o mais novo: Pai, concede-me a parte da
natureza que me convém.”
A Vulgata Latina traduz “Dá-me a porção da substância que me pertence”.
Substância, em latim, pode significar “aquilo quesubestá”, que subjaz à
minha vida, que é a minha natureza humana de jovem. Mas os tradutores
entendem, geralmente, por substância o dinheiro.
O texto original grego é bem claro quando diz: “A parte da minha natureza (ousia, do verbo einai, que significa ”ser”) que me convém (epibállon)”.
Que é que o filho mais novo, talvez de 15 anos, pede ao pai?
Muitos pensam que ele tenha pedido a parte dos bens materiais a que
julgava ter dinheiro, e o pai teria distribuído entre os dois filhos os
bens da família, na medida do direito de cada um. Mas teria um rapaz o
direito de pedir isto ao pai? E, se assim acontecera, como se entende
que, após o regresso do filho pródigo, o filho mais velho diz ao pai que
nunca recebeu nada dele? Se houvesse partilha dos bens, teria o filho
mais velho recebido a sua parte, e não se poderia queixar.
O texto grego não se refere à partilha dos bens, fala da parte da natureza (ousia)
que ao jovem convém. Isto é, o jovem reclama o direito da sua
juventude, insiste na sua liberdade pessoal de jovem independente, faz
valer o direito de não mais ser criança dependente, mas
adolescente autônomo. Pede um modo de vida conveniente (epibállon) a sua natureza de jovem.
O pai reconhece, em silêncio, essa conveniência; não protesta, não
dissuade o jovem com nenhuma palavra; reconhece que ele deve iniciar a
fase da sua adolescência. Também não aparece nenhuma mãe chorando e
dissuadindo o filho de gozar os direitos da sua mocidade independente.
Em silêncio, “o pai dividiu entre eles a vida” (bios). A palavra grega “bios” quer dizer “vida”, onde a Vulgata Latina repete a mesma palavra “substância”.
O pai dividiu a vida (bios) entre os dois filhos: o mais velho continua
na sua vida dependente, o mais novo inicia uma vida independente. Ou
seja: o filho mais novo desperta para o segundo estágio da
evolução hominal, deixa de ser criança inexperiente, e passa a ser um
jovem experiente da sua ego-personalidade ao passo que seu irmão mais
velho continua estagnado no plano do seu infra-ego inexperiente; não
comeu ainda do “fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal”, como
diria Moisés.
O
jovem, aparentemente, regressou para donde viera; na realidade, porém,
esse regresso foi um super-gresso; o ponto da sua volta não coincidiu
com o ponto da sua partida; não fechou simplesmente um círculo, abriu
uma grande espiral, cujo termo de chegada está imensamente acima do
termo de partida; oregresso superou o egresso, porque entre este e aquele acontece um ingresso.Entre
a partida e a chegada houve uma gigantesca evolução – a jornada cósmica
que vai da culpa através do sofrimento até a redenção.
Para celebrar esse grande acontecimento – a autocompreensão e
auto-realização de um homem – o Evangelho recorre a tudo quanto possa
simbolizar suprema alegria e solenidade: abraços, beijos, anel precioso,
deslumbrante vestuário, lauto festim, músicas e bailados. É que a
realização de um único homem é um fenômeno mais grandioso que todos os
astros e galáxias do Universo. Deus creou todas as grandezas do cosmos –
mas um único homem plenamente realizado é um Universo de creatividade
acima de todas as creatitudes...
Quando se estava celebrando essa grande harmonia, aparece uma aguda
dissonância: o filho mais velho, que estagnara na sua evolução e
continuara a marcar passo na inexperiência, revelou-se incapaz de
compreender a linha ascencional evolutiva de seu irmão, que culminou em
suprema verticalidade. Nem aceita a palavra “teu irmão”, mas a substitui
por “teu filho”. De fato, o jovem realizado não era mais “irmão” dele;
não havia nenhuma afinidade espiritual entre eles; ele era apenas “teu
filho”, um filho de Deus, sem afinidade com outros filhos de Deus. O
filho mais velho se queixa de nunca ter sido recompensado por sua
obediência de muitos anos, ao passo que o outro, auto-realizado, nada
sabe de recompensa, de espírito mercenário. Quem encontrou o seu
verdadeiro ser nada mais sabe do ilusórioter. Quem realizou o seu ser só conhece amor, e nada sabe de recompensa.
O poema do filho pródigo marca o zênite da genialidade do
Nazareno,quando considerado à luz do drama cósmico da auto-realização do
homem e da evolução multimilenar da humanidade.
O filho mais velho representa um ser humano que, longe de atingir as alturas da individualidade do Eu divino nem sequer despertara para a personalidade do
seu ego humano. E quem não tem consciência do seu ego não é possuidor
de nada, como os seres da natureza, que nada sabem de posse ou
possessividade.
Por isso, diz muito bem o Pai, que simboliza Deus. “Tudo que é meu é
teu”. Tudo que é de Deus é também do mundo infra-humano – mineral,
vegetal, animal – mas esse mundo nada sabe de “meu”. O infra-ego não
possui nada, nem sequer um “cabrito”. A consciência do “meu” é um
corolário do pequeno “eu” personal ou ego.
O filho mais novo havia chegado à ego-consciência personal e a tinha superado, atingindo as alturas da Eu-consciência cósmica.
O hino místico Exultet, que se canta anualmente na véspera ou manhã de Páscoa, exclama: “O Felix culpa! O vere necessarium Adae peccatum, quod talem et tantum meruisti redemptorem!”(Ó culpa feliz! Ó pecado de Adão realmente necessário, que tal e tão grande Redentor mereceste!).
Poderá haver culpa feliz? Haverá pecado necessário?
Em face da teologia analítica, isto é blasfemo – mas à luz da visão da
mística intuitiva, isto é sublime. Culpa e pecado simbolizam o estágio
evolutivo do homem através do ego em demanda do Eu. A nossa humanidade
da ego-personalidade já está no plano horizontal da “culpa feliz” e do
“pecado necessário”; falta-lhe superar esse plano e atingir a plenitude
vertical da sua redenção.
Após o subego, a kundalini, enrolada e dormente, acordará como ego rastejante no plano horizontal, “comendo do pó da terra” – no superego, ou Eu, kundalini se ergue à plenitude vertical da sua auto-realização.
A história do filho pródigo encerra uma metafísica de infinita profundidade e uma mística de inaudita sublimidade.
Simplesmente isso, sem comentárioas adjacentes...o Humberto conseguiu
chegar a um ponto que poucos chegaram com essa parábola, como eu nunca
tinha visto antes.
Texto escrito por Humberto Rohden, retirado do livro Sabedoria das Parábolas, editado pela Martin Claret.
O ensinamento contido na parábola “Trabalhadores da Última Hora” à luz da
Doutrina Espírita, mostra a importância do trabalho e da boa
disposição que nos levará ao progresso individual e coletivo, além de evidenciar o papel
do Espírita na grande obra de Deus.
Os Espíritos esclarecem que,
"o trabalho é uma lei da Natureza, e por isso mesmo uma necessidade. O
Espírito também trabalha, como o corpo, e toda ocupação útil é
trabalho".
Quem são os trabalhadores chamados desde a primeira até a última hora?
• Por que os Espíritas são considerados trabalhadores da última hora?
• Quem são os trabalhadores do Senhor?
• Quais são as qualidades dos verdadeiros Espíritas?
• Qual é a missão dos espíritas e como contribuirão na grande obra da regeneração?
Como todo estudioso do Espiritismo sabe, o título do presente artigo é o
título dado por Allan Kardec ao capítulo 20 de O Evangelho Segundo o
Espiritismo. O que poucos talvez tenham notado é que esse é o único capítulo
do livro que não possui comentários do próprio Kardec: à transcrição da passagem
evangélica – a intrigante parábola dos trabalhadores da última hora – seguem-se
imediatamente as Instruções dos Espíritos, em número de quatro. Isso, porém, não
passa de detalhe curioso, já que os textos de Kardec e os dos Espíritos
expressam um pensamento uno, não sendo raro que os primeiros superem os segundos
em alcance, clareza e precisão. O que mais importa são os ensinamentos contidos
no capítulo. Iremos, por economia de espaço, restringir nossa análise à parábola
e ao primeiro texto escolhido por Kardec para comentá-la, de autoria de
Constantino, Espírito Protetor, recebida em Bordeaux em 1863.
2. A parábola
Para comodidade do leitor, transcreveremos agora todo o texto da parábola
citado por Kardec. Notemos, desde já, que se trata de uma das muitas ocasiões em
que Jesus procura ensinar algo sobre Deus e as leis divinas – “o reino dos céus”
– por meio de uma comparação com uma estória envolvendo coisas e situações
ordinárias. Eis a parábola, registrada em Mateus 20:1-16:
O reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu de madrugada, a
fim de assalariar trabalhadores para a sua vinha. – Tendo convencionado com os
trabalhadores que pagaria um denário a cada um por dia, mandou-os para a vinha.
– Saiu de novo à terceira hora do dia e, vendo outros que se conservavam na
praça sem fazer coisa alguma, – disse-lhes: Ide também vós outros para a minha
vinha e vos pagarei o que for razoável. Eles foram. – Saiu novamente à hora
sexta e à hora nona do dia e fez o mesmo. – Saindo mais uma vez à hora undécima,
encontrou ainda outros que estavam desocupados, aos quais disse: Por que
permaneceis aí o dia inteiro sem trabalhar? – É, disseram eles, que ninguém nos
assalariou. Ele então lhes disse: Ide vós também para a minha vinha. – Ao cair
da tarde disse o dono da vinha àquele que cuidava dos seus negócios: Chama os
trabalhadores e paga-lhes, começando pelos últimos e indo até aos primeiros. –
Aproximando-se então os que só à undécima hora haviam chegado, receberam um
denário cada um. – Vindo a seu turno os que tinham sido encontrados em primeiro
lugar, julgaram que iam receber mais; porém, receberam apenas um denário cada
um. – Recebendo-o, queixaram-se ao pai de família, – dizendo: Estes últimos
trabalharam apenas uma hora e lhes dás tanto quanto a nós que suportamos o peso
do dia e do calor. – Mas, respondendo, disse o dono da vinha a um deles: Meu
amigo, não te causo dano algum; não convencionaste comigo receber um denário
pelo teu dia? – Toma o que te pertence e vai-te; apraz-me a mim dar a este
último tanto quanto a ti. – Não me é então lícito fazer o que quero? Tens mau
olho, porque sou bom? – Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros
serão os últimos, porque muitos são os chamados e poucos os escolhidos.
3. Começando a entender...
Das parábolas evangélicas, algumas são de compreensão relativamente fácil,
como a do bom samaritano (Lc 10:25-37) ou a do semeador (Mt 13:1-9), que o
próprio Jesus explicou aos discípulos (Mt 13:18-23). Outras, porém, trazem
dificuldades interpretativas consideráveis, exigindo mais meditação e maior
familiaridade com o conjunto da doutrina cristã para que um sentido razoável
seja alcançado. Dissemos um sentido, porque a riqueza alegórica dessas
estórias contadas pelo Mestre em geral deixa aberta a possibilidade de diversas
interpretações.
A parábola dos trabalhadores da última hora seguramente pertence à classe das
parábolas “difíceis”, já que compara o reino dos céus, onde tudo é justiça, com
uma situação aparentemente injusta: a remuneração igual a jornadas de trabalho
desiguais.
Não obstante essa dificuldade central, a parábola contém, felizmente, alguns
pontos mais ou menos claros, com os quais devemos principiar nossos esforços
interpretativos. Trata-se de várias “pontes” que ligam os elementos da estória
com o reino dos céus:
o pai de família
–
Deus
a vinha
–
o Universo
os trabalhadores
–
os seres humanos
o trabalho na vinha
–
o trabalho no bem
as horas
–
qualquer período de tempo
o salário
–
a felicidade
Embora nem todas as ligações sugeridas sejam triviais, acreditamos que sejam
as que mais naturalmente ocorrem a quem se dedique a entender o texto
evangélico. O sentido geral do ensinamento é que é difícil de apreender,
dado o aparente conflito da idéia de um Deus justo com o modo pelo qual o senhor
da vinha remunerou os trabalhadores. Logicamente, só temos duas opções para
eliminar o conflito: ou supomos que Jesus de fato pretendeu caracterizar Deus
como injusto; ou revemos nossa impressão inicial, de que o comportamento do
senhor da vinha foi injusto. Ora, como a primeira alternativa é insustentável,
face ao conjunto dos ensinamentos cristãos, temos de desenvolver a segunda
opção. Para tanto, comecemos atentando para o seguinte:
O pai de família pagou aos trabalhadores da primeira hora
exatamente o valor combinado, de modo que não os prejudicou, como ele mesmo
lembrou quando eles se queixaram;
Quanto aos demais, a parábola nada diz sobre acerto de salário,
sugerindo-nos que os trabalhadores aceitaram a oferta de trabalho sem
pré-condições;
O próprio senhor da vinha justifica sua ação, dizendo que foi um ato de
bondade: o denário que mandou dar aos que foram convocados mais tarde seria,
pois, parte remuneração pelas horas que trabalharam e parte auxílio
espontâneo.
Assim, quando consideramos os casos separadamente vemos que em suas relações
com cada grupo de obreiros o senhor nada fez de errado.
Mas mesmo nos termos em que a questão é colocada no item (c), ficamos
incomodados com o fato de que o senhor distribuiu o benefício-extra
desigualmente: quanto mais tarde chegaram, menor a parcela do denário
correspondente à remuneração, e portanto maior a que representaria o auxílio.
Talvez seja útil transpor a questão para situações de nosso dia-a-dia. Quando
saímos pela rua e damos esmolas desiguais a dois pedintes estaremos sendo
injustos? Quando contribuímos, em trabalho ou dinheiro, com duas instituições de
caridade, porém em maior medida a uma do que à outra, é injustiça?
Nossas reflexões sobre esse problema podem ser auxiliadas pelas considerações
expendidas por Constantino na mencionada instrução. Passemos, pois, a ela.
4. Recorrendo a Constantino...
O texto de Constantino compõe-se de quatro parágrafos, que passam
gradativamente aos níveis interpretativos mais alegóricos da parábola. O curto
parágrafo inicial atém-se ainda de forma quase que exclusiva ao sentido literal
do texto evangélico:
[§ 1] O obreiro da última hora tem direito ao salário, mas é preciso que a
sua boa-vontade o haja conservado à disposição daquele que o tinha de empregar e
que o seu retardamento não seja fruto da preguiça ou da má-vontade. Tem ele
direito ao salário, porque desde a alvorada esperava com impaciência aquele que
por fim o chamaria para o trabalho. Laborioso, apenas lhe faltava o labor.
Vemos que o Espírito destaca alguns aspectos importantes que ainda não
havíamos considerado. Há uma condição para o recebimento do denário: a
disposição permanente para o trabalho. Aqueles que foram contratados à terceira,
sexta, nona e undécima hora tinham boa-vontade, ansiavam por trabalhar.
Faltou-lhes, porém, a oportunidade. Quando o senhor da vinha os convocou,
aceitaram pressurosamente e, segundo se depreende, sem sequer inquirir pela
remuneração.
Visando a realçar esse ponto, no segundo parágrafo Constantino estende a
parábola para uma hipotética situação contrastante:
[§ 2] Se, porém, se houvesse negado ao trabalho a qualquer hora do dia; se
houvesse dito: “tenhamos paciência, o repouso me é agradável; quando soar a
última hora é que será tempo de pensar no salário do dia; que necessidade tenho
de me incomodar por um patrão a quem não conheço e não estimo! quanto mais
tarde, melhor”; esse tal, meus amigos, não teria tido o salário do obreiro, mas
o da preguiça.
As disposições positivas dos trabalhadores da última hora podem, assim, ser
entendidas como fatores que sensibilizaram o pai de família, induzindo-o ao
gesto de generosidade.
Ademais, vale lembra que ao perguntar, no item 930 de O Livro dos
Espíritos,acerca da situação das pessoas que se vêm impossibilitadas de
trabalhar por causas independentes de sua vontade, Kardec obtém a observação de
que “Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo ninguém deve morrer de
fome”. E, explicando o ponto, os Espíritos acrescentam: “Com uma organização
social criteriosa e previdente, ao homem só por culpa sua pode faltar o
necessário.” É, pois, uma clara alusão à solidariedade que os homens devem se
esforçar por implantar no mundo.
Felizmente, notamos que esse pensamento, de vanguarda para a época, já vem se
difundindo entre as lideranças mais lúcidas de nossa sociedade, tanto assim que
em muitos países já existe o seguro-desemprego, para acudir aos trabalhadores
que contingencialmente se encontrem sem oportunidade de emprego. Nenhuma pessoa
sensata classificaria de injusto esse dispositivo, muito pelo contrário.
Ora, nessa perspectiva o senhor da parábola seria alguém que, mesmo naqueles
tempos primitivos, teria sido tocado pela dificuldade daqueles homens que
impacientemente esperavam pela oportunidade de ganhar seu pão, solidarizando-se
com eles por meio, primeiro, da oferta de trabalho e, depois, pelo auxílio
pecuniário adicional.
Afastando-nos agora um pouco do sentido literal da estória, ensaiemos a sua
interpretação em termos do “reino dos céus”. Com base no que foi visto até aqui,
infere-se que com a parábola Jesus procurou salientar a virtude da boa-vontade e
da disposição para o trabalho. Num plano mais amplo, o trabalho não deve, é
claro, ser entendido unicamente como o trabalho ordinariamente assim
considerado, as atividades braçais e intelectuais passíveis de remuneração.
“Toda ocupação útil é trabalho”, conforme a resposta à questão 675 de O Livro
dos Espíritos. Tudo o que concorra para o desenvolvimento próprio, do
semelhante e, em geral, da criação, é trabalho, nessa conceituação estendida.
A mensagem mais evidente da parábola é, pois, a importância de nosso
engajamento nas atividades da “vinha” universal. Ele traz para nós o “salário”
da felicidade: o bem-estar físico, a satisfação intelectual, o prazer do cultivo
do Belo, a tranqüilidade moral.
A diversidade dos grupos de trabalhadores da parábola indica a diversidade
dos seres criados e das tarefas a desempenhar em cada estágio de sua evolução.
Deus reconhece essa diversidade, convocando cada um a seu tempo para as tarefas
adequadas ao momento. E contanto que haja disposição para o trabalho, todos
recebem o fruto de seus labores, por mais modestos que sejam. Não espera o
Senhor que, num dado “dia” todos desempenhem as mesmas tarefas. A meta de todos
deve ser a de colaborar cada vez mais na obra divina, mas a convocação divina
leva em conta a capacidade presente de cada um. A nós cabe estar permanentemente
dispostos ao labor, para que não sejamos como os servos imaginados por
Constantino, que receberam somente o “salário da preguiça”, ou seja, a
estagnação evolutiva.
Não somente a preguiça e a indiferença têm de ser evitadas, mas também a
afoiteza e a precipitação. Por falta de bom-senso, arriscamo-nos freqüentemente
em tarefas para as quais não estamos, presentemente, preparados. Pior ainda:
movidos pelo orgulho lançamo-nos em empreendimentos que se nos afiguram
“grandes”, não pelo bem que deles decorra, mas pela evidência em que nos
coloquem. O malogro parcial ou total, e a dura decepção de nossa vaidade é o
resultado inevitável de tais iniciativas.
A igualdade dos “pagamentos” que cada trabalhador de boa-vontade recebe
reflete a bondade divina, que valoriza tudo aquilo que venhamos a fazer na obra
do bem. Não ressaltou Jesus esse ponto na expressiva passagem do óbolo da viúva?
(Ver Mc 12:41-44 e Lc 21:1-4, bem como os comentários de Kardec a essa passagem
no item 6 do capítulo 13 de O Evangelho Segundo o Espiritismo.)
Outra virtude veladamente evocada pela parábola é o desinteresse. Conforme já
notamos, os trabalhadores da última hora e todos os demais que foram convocados
depois do início do dia aceitaram a oferta de trabalho sem perguntar quanto
ganhariam. Do mesmo modo, nossa meta é fazer o bem pelo bem, tão logo a ocasião
apareça, e não “por cálculo”, contabilizando os benefícios que dele nos
advenham. Kardec sabiamente inseriu um estudo sobre esse ponto logo após o
referente ao óbolo da viúva, nos itens 7 e 8 do capítulo 13 de O Evangelho
Segundo o Espiritismo. Todo esse capítulo, aliás, contém reflexões valiosas
sobre o assunto, complementando as fundamentais elucidações contidas na seção
inicial do capítulo “Da perfeição moral” de O Livro dos Espíritos.
Por fim, além da indolência e do interesse, mais um vício parece ser
exprobrado na parábola: a inveja (“Tens mau olho, porque sou bom?”). Vendo o
gesto de generosidade do pai de família, os trabalhadores da primeira hora
queixaram-se, muito embora no que lhes dissesse respeito ele houvesse agido com
correção. Aproveitando uma sugestão interpretativa feita anteriormente, seria
mais ou menos como se nos queixássemos do governo por conceder
auxílio-desemprego a um colega provisoriamente desempregado. Além de
injustificável inveja, faltaríamos com a solidariedade, que deve reinar entre os
homens em geral. (Questão deixada para o leitor: Quem os trabalhadores da
primeira hora poderiam simbolizar?)
5. Ainda com Constantino...
Após ter comentado, assim, a situação dos preguiçosos e indiferentes,
Constantino prossegue, penúltimo parágrafo da mensagem:
[§ 3] Que dizer, então, daquele que, em vez de apenas se conservar inativo,
haja empregado as horas destinadas ao labor do dia em praticar atos culposos;
que haja blasfemado de Deus, derramado o sangue de seus irmãos, lançado a
perturbação nas famílias, arruinado os que nele confiaram, abusado da inocência,
que, enfim, se haja cevado em todas as ignomínias da Humanidade? Que será desse?
Bastar-lhe-á dizer à última hora: Senhor, empreguei mal o meu tempo; toma-me até
ao fim do dia, para que eu execute um pouco, embora bem pouco, da minha tarefa,
e dá-me o salário do trabalhador de boa vontade? Não, não; o Senhor lhe dirá:
“Não tenho presentemente trabalho para te dar; malbarataste o teu tempo;
esqueceste o que havias aprendido; já não sabes trabalhar na minha vinha.
Recomeça, portanto, a aprender e, quando te achares mais bem disposto, vem ter
comigo e eu te franquearei o meu vasto campo, onde poderás trabalhar a qualquer
hora do dia.”
Agora não se trata mais da indolência do servo que despreza o trabalho, mas
da ação destrutiva daquele que, ao invés de ajudar, atrapalha a obra divina. A
extensão dos comentários de Constantino para esse tópico é particularmente
relevante para nós, Espíritos ligados à Terra. A observação dos fatos confirma a
classificação de Kardec na seção “Destinação da Terra – Causas das misérias
humanas”, do capítulo 3 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, da Terra
como planeta especialmente destinado ao abrigo de Espíritos desajustados com as
leis divinas. Como reafirmaria depois Emmanuel, “todas as entidades espirituais
encarnadas no orbe terrestre são Espíritos que se resgatam ou aprendem nas
experiências humanas, após as quedas do passado, com exceção de Jesus-Cristo...”
(O Consolador, questão 243).
Também sabemos, à luz dos ensinos cristãos e espíritas, que nossa
interferência indébita na harmonia universal traz para nós conseqüências
negativas, sofrimentos e tribulações que visam a impor limites à nossa ação
maléfica, despertando-nos para o bem. Não desenvolveremos esse tema aqui, por
sobejamente explorado na boa literatura espírita.
Centremos nossa atenção nas singulares palavras de Constantino. Como entender
a reação atribuída ao Senhor, diante do servo mau: “Não tenho presentemente
trabalho para te dar...” ? Tolher-nos-ia Deus a oportunidade do trabalho depois
que falimos? Sabemos, por outro lado, que é somente pelo trabalho no bem que
repararemos nossos erros, apagando suas repercussões. (Ver o “Código penal da
vida futura”, no capítulo 7 da primeira parte de O Céu e o Inferno.)
Inspecionando mais atentamente o texto, vemos que o Senhor não impede para
sempre o servo “cevado em todas as ignomínias” de trabalhar em sua vinha. Depois
que reaprender a trabalhar construtivamente, ser-lhe-á novamente franqueado o
vasto campo de ação na vinha.
Mas por que esse impedimento temporário? É que a prática do mal pode de tal
forma destrambelhar-nos que, por algum tempo, naturais limitações nos advirão.
Seria como um motorista insensato, que provoca um acidente e vai hospitalizado.
Enquanto permanecer internado, não poderá desenvolver todas as atividades para
as quais estaria em princípio capacitado. É um período de recomposição.
Do mesmo modo, aos nossos desatinos espirituais sobrevém um estágio de
reequilíbrio, de aprendizado pela dor, de reflexão. Se, porém, esse estágio no
“hospital” divino nos limita em alguns aspectos – as idiotias, as paralisias, as
enfermidades degenerativas incuráveis, a miséria extrema, etc. – sempre
resta-nos a possibilidade de agir no bem pela paciência e resignação, pelos
esforços para corrigir-nos, pela gratidão a quem nos auxilie, pelo sorriso de
esperança, e por tantas outras formas.
6. Seriam os espíritas os trabalhadores da última hora?
Concluindo este nosso estudo, vejamos agora o último parágrafo do texto de
Constantino. Com base nele, bem como numa passagem da Instrução que o segue, de
Henri Heine, difundiu-se no meio espírita a idéia de que “os espíritas são os
trabalhadores da última hora”. Não é raro vermos esse pensamento exposto até
mesmo com uma certa ponta de orgulho. Afinal, na parábola os trabalhadores da
undécima hora são aqueles que mais se beneficiaram da magnanimidade do senhor.
Estaríamos todos, então, admitidos à vinha, com salário integral e tudo.
Será isso o que os Espíritos escreveram, ou deram a entender? Examinaremos
aqui apenas o que diz Constantino, pois a mensagem de Heine parte de uma
perspectiva diferente e requereria outro artigo. Eis o parágrafo:
[§ 4] Bons espíritas, meus bem-amados, sois todos obreiros da última hora.
Bem orgulhoso seria aquele que dissesse: Comecei o trabalho ao alvorecer do dia
e só o terminarei ao anoitecer. Todos viestes quando fostes chamados, um pouco
mais cedo, um pouco mais tarde, para a encarnação cujos grilhões arrastais; mas
há quantos séculos e séculos o Senhor vos chamava para a sua vinha, sem que
quisésseis penetrar nela! Eis-vos no momento de embolsar o salário; empregai bem
a hora que vos resta e não esqueçais nunca que a vossa existência, por longa que
vos pareça, mais não é do que um instante fugitivo na imensidade dos tempos que
formam para vós a eternidade.
A leitura atenta deste trecho não parece corroborar a referida interpretação.
Primeiro, a frase inicial qualifica os espíritas: “Bons espíritas...”. O
adjetivo ‘bons’ em geral passa despercebido! Logo, a frase não diz respeito aos
espíritas em geral, mas aos bons espíritas. E todos conhecemos a
impressionante lista de qualidades dos bons espíritas, que Kardec registrou no
capítulo 17 do Evangelho Segundo o Espiritismo, seções “O homem de bem” e
“Os bons espíritas”.
Além disso, a frase não tem o artigo definido ‘os’ antes de ‘obreiros da
última hora’, como normalmente se diz. A inclusão do artigo emprestaria ao
pensamento um ar de sectarismo e orgulho incompatível com a índole da doutrina
espírita. Os bons espíritas não são os obreiros da última hora, com a
implícita exclusão dos outros homens, mas simplesmente obreiros da última hora.
Eles são aqueles que passaram, numa “hora” relativamente recente da história da
humanidade, a trabalhar, ao lado de tantos outros, na vinha do Senhor.
E mais: nem mesmo entendida corretamente a comparação de Constantino serviria
de fundamento a qualquer sentimento ufanista no meio espírita. Afinal, os
trabalhadores da última hora não tiveram nenhum mérito relativamente aos da
primeira hora. Simplesmente são aqueles para quem, por uma razão ou por outra, a
tarefa chegou um pouco mais tarde.
Prosseguindo, o Espírito modifica um pouco a alegoria, ao salientar que mesmo
estes em geral ignoraram durante séculos os apelos do Senhor para o trabalho na
vinha! A rigor, então, os bons espíritas não deveriam se orgulhar nem mesmo de
terem sempre estado aguardando ansiosamente o chamado para a obra divina. Estão,
via de regra, na condição geral da humanidade terrena, de Espíritos que fizeram
mau uso de seu livre-arbítrio em passado próximo ou distante.
No entanto, o que os caracteriza – sem a exclusão de outros, repetimos – é
que agora já superaram aquele período de “hospitalização”, e reaprenderam a
trabalhar no bem. Esse o seu maior salário: a bênção de já poderem trabalhar na
construção de sua felicidade, mediante o amor ativo ao próximo e a si mesmos.
Que dizer agora dos espíritas que ainda não podem ser ditos bons?
Esses são os que, não obstante terem as luzes dos princípios espíritas ao seu
alcance, ainda resistem indolentemente a trabalhar, ou a trabalhar tanto quanto
sua condição permitiria; ou aqueles, em condição mais lastimável ainda, que
ainda se “cevam nas ignomínias” morais, sem envidar esforços para emendar-se.
É claro que essa classificação não é nítida, ou seja, não há apenas dois
grupos de espíritas. Há uma gradação contínua, começando naqueles francamente
retardatários e terminando nos que já entendem e vivenciam plenamente as
diretrizes divinas para os homens. Caberá a nós determinar, pelo exame isento de
nossos pensamentos e atos, nossa posição nessa escala, e incessantemente
procurar galgar posições cada vez mais avançadas, pela reparação de nossos
erros, pela superação de vícios e conquista de virtudes.
Referências bibliográficas
Emmanuel. O Consolador. (Médium Francisco Cândido Xavier.) 8a
ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1940.
Kardec, A. O Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 43a
ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.
–––. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. de Guillon Ribeiro.
111a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira,
s.d.
–––. O Céu e o Inferno. Trad. de Manuel Quintão. 28ª edição, Rio de
Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.
"Eis que o semeador saiu a semear.
E quando semeava, uma parte da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves,
e comeram-na;
E outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu,
porque não tinha terra funda;
Mas vindo o sol, queimou-se, e secou-se, porque não tinha raiz.
E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram, e sufocaram-na.
E outra caiu em boa terra, e deu fruto: um a cem, outro a sessenta e outro a
trinta.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça".
(Mateus, XIII, 3 a 9).
O semeador da parábola é Jesus. As sementes são seus ensinos, os quais são
distribuídos ao mundo através das religiões.
A partir daí, o Mestre começa fazer um comparativo na maneira de ver e entender
de cada pessoa, demonstrando as nuanças da personalidade humana.
As sementes que caem ao pé do caminho e que são comidas pelas aves do céu antes
que nasçam simbolizam aqueles que, mesmo tendo a oportunidade de conhecer a
palavra de Deus, não se importam com ela. Estão com o pensamento totalmente
voltado para a vida mundana. Tudo que se relaciona a Deus ou à moral cristã é
visto com desprezo. Jesus compara as aves aos Espíritos maus que aproveitam as
más tendências destes indivíduos para os atormentar e inspirá-los a permanecerem
longe do Criador.
Já as sementes que caem em pedregais, nascendo logo devido à pouca profundidade
da terra, lembra os que conhecem a palavra de Deus e como que num passe de
mágica, maravilham-se. Sua mudança de conduta é instantânea, chegando mesmo a
ser radical. Tudo que fazem passa a ser voltado para Deus e qualquer deslize de
atitude é um martírio.
Na verdade, retratam os seres que creram, mas não compreenderam os ensinos
espirituais. Acreditam estar isentos de qualquer outra dificuldade em suas
vidas, por estarem dedicando-se ao extremo no trabalho de Jesus. Porém, a
existência não é assim, e logo virão as provas e expiações, necessárias ao nosso
aprimoramento moral e intelectual. É o sol da parábola, que queimará aquela
planta que cresceu sem que tivesse raízes profundas, ou seja, verdadeiro
entendimento da vida e suas leis. A pessoa sente-se injustiçada por Deus, que,
segundo ela, deveria evitar-lhe dores e dúvidas. E então, deixa por completo o
trabalho espiritual e volta para sua descrença, não compreendendo que a natureza
não dá saltos, e toda mudança abrupta tende a levar o ser ao ponto inicial.
A parte que caiu entre os espinhos leva àqueles que até escutam e entendem a
palavra de Deus. Porém, os espinhos, que são suas preocupações excessivas com o
trabalho material sufocam sua tentativa de entendimento e prática da caridade,
afastando-os do conhecimento espiritual.
Finalmente, há a semente que cai em boa terra, cresce e frutifica. São aqueles
que, compreendendo que a matéria não é tudo, buscam nos ensinamentos espirituais
as respostas às suas dúvidas e o consolo às suas dores, fazendo da prática da
caridade um hábito da existência.
Mas alerta Jesus que mesmo entre estes há diferenças de entendimento, pois
alguns produzirão mais do que os outros. Caberá a cada homem saber se deverá dar
trinta, sessenta ou cem por um. A consciência será seu guia.
Quem tiver ouvido de ouvir, ou seja, condição de entender, que assim o faça.
O jovem, aparentemente, regressou para donde viera; na realidade, porém, esse regresso foi um super-gresso; o ponto da sua volta não coincidiu com o ponto da sua partida; não fechou simplesmente um círculo, abriu uma grande espiral, cujo termo de chegada está imensamente acima do termo de partida; oregresso superou o egresso, porque entre este e aquele acontece um ingresso.Entre a partida e a chegada houve uma gigantesca evolução – a jornada cósmica que vai da culpa através do sofrimento até a redenção.
Para celebrar esse grande acontecimento – a autocompreensão e auto-realização de um homem – o Evangelho recorre a tudo quanto possa simbolizar suprema alegria e solenidade: abraços, beijos, anel precioso, deslumbrante vestuário, lauto festim, músicas e bailados. É que a realização de um único homem é um fenômeno mais grandioso que todos os astros e galáxias do Universo. Deus creou todas as grandezas do cosmos – mas um único homem plenamente realizado é um Universo de creatividade acima de todas as creatitudes...
Quando se estava celebrando essa grande harmonia, aparece uma aguda dissonância: o filho mais velho, que estagnara na sua evolução e continuara a marcar passo na inexperiência, revelou-se incapaz de compreender a linha ascencional evolutiva de seu irmão, que culminou em suprema verticalidade. Nem aceita a palavra “teu irmão”, mas a substitui por “teu filho”. De fato, o jovem realizado não era mais “irmão” dele; não havia nenhuma afinidade espiritual entre eles; ele era apenas “teu filho”, um filho de Deus, sem afinidade com outros filhos de Deus. O filho mais velho se queixa de nunca ter sido recompensado por sua obediência de muitos anos, ao passo que o outro, auto-realizado, nada sabe de recompensa, de espírito mercenário. Quem encontrou o seu verdadeiro ser nada mais sabe do ilusórioter. Quem realizou o seu ser só conhece amor, e nada sabe de recompensa.
O poema do filho pródigo marca o zênite da genialidade do Nazareno,quando considerado à luz do drama cósmico da auto-realização do homem e da evolução multimilenar da humanidade.
O filho mais velho representa um ser humano que, longe de atingir as alturas da individualidade do Eu divino nem sequer despertara para a personalidade do seu ego humano. E quem não tem consciência do seu ego não é possuidor de nada, como os seres da natureza, que nada sabem de posse ou possessividade.
Por isso, diz muito bem o Pai, que simboliza Deus. “Tudo que é meu é teu”. Tudo que é de Deus é também do mundo infra-humano – mineral, vegetal, animal – mas esse mundo nada sabe de “meu”. O infra-ego não possui nada, nem sequer um “cabrito”. A consciência do “meu” é um corolário do pequeno “eu” personal ou ego.
O filho mais novo havia chegado à ego-consciência personal e a tinha superado, atingindo as alturas da Eu-consciência cósmica.
O hino místico Exultet, que se canta anualmente na véspera ou manhã de Páscoa, exclama: “O Felix culpa! O vere necessarium Adae peccatum, quod talem et tantum meruisti redemptorem!”(Ó culpa feliz! Ó pecado de Adão realmente necessário, que tal e tão grande Redentor mereceste!).
Poderá haver culpa feliz? Haverá pecado necessário?
Em face da teologia analítica, isto é blasfemo – mas à luz da visão da mística intuitiva, isto é sublime. Culpa e pecado simbolizam o estágio evolutivo do homem através do ego em demanda do Eu. A nossa humanidade da ego-personalidade já está no plano horizontal da “culpa feliz” e do “pecado necessário”; falta-lhe superar esse plano e atingir a plenitude vertical da sua redenção.
Após o subego, a kundalini, enrolada e dormente, acordará como ego rastejante no plano horizontal, “comendo do pó da terra” – no superego, ou Eu, kundalini se ergue à plenitude vertical da sua auto-realização.
A história do filho pródigo encerra uma metafísica de infinita profundidade e uma mística de inaudita sublimidade.
Simplesmente isso, sem comentárioas adjacentes...o Humberto conseguiu chegar a um ponto que poucos chegaram com essa parábola, como eu nunca tinha visto antes.
Texto escrito por Humberto Rohden, retirado do livro Sabedoria das Parábolas, editado pela Martin Claret.
Evolução do homem através de erros humanos para a verdade divina.
A história do Filho Pródigo é, quase sempre, apresentada exclusivamente como a parábola clássica da misericórdia de Deus para com o pecador penitente. Oradores e escritores fazem dela um poema melodramático e sentimental do amor de um Pai que recebe de braços abertos um filho ingrato que, finalmente, se arrepende dos seus desvarios e regressa à casa paterna. Esse pai misericordioso é Deus, e o filho pródigo é qualquer pecador que se converte.
Não é intenção nossa excluir totalmente essa interpretação comovente.
Entretanto, à luz do texto original do primeiro século, não cremos que seja esta quintessência, o alfa e ômega da história narrada por Jesus. Por entre as linhas aparece algo infinitamente mais profundo e sublime, mais cósmico e ontológico que esse drama do amor paterno e da humanidade filial.
A história do filho pródigo – que, no Evangelho, não é chamada parábola – é o drama da evolução ascensional do homem e aepopéia multimilenar da própria humanidade. Podemos até afirmar que, nessa narrativa, atingiu o espírito do Nazareno as maisexcelsas culminâncias da sua visão cósmica sobre o homem individual e sobre a humanidade universal.
A fim de compreendermos devidamente o poema cósmico do filho pródigo, devemos, acima de tudo, remontar ao texto grego do primeiro século, nem sempre fielmente reproduzido em nossas traduções.
No texto grego original de Lucas – o único evangelista que refere o fato e que escreveu diretamente em língua grega – lemos o seguinte: “Um pai tinha dois filhos. Disse-lhe o mais novo: Pai, concede-me a parte da natureza que me convém.”
A Vulgata Latina traduz “Dá-me a porção da substância que me pertence”. Substância, em latim, pode significar “aquilo quesubestá”, que subjaz à minha vida, que é a minha natureza humana de jovem. Mas os tradutores entendem, geralmente, por substância o dinheiro.
O texto original grego é bem claro quando diz: “A parte da minha natureza (ousia, do verbo einai, que significa ”ser”) que me convém (epibállon)”.
Que é que o filho mais novo, talvez de 15 anos, pede ao pai?
Muitos pensam que ele tenha pedido a parte dos bens materiais a que julgava ter dinheiro, e o pai teria distribuído entre os dois filhos os bens da família, na medida do direito de cada um. Mas teria um rapaz o direito de pedir isto ao pai? E, se assim acontecera, como se entende que, após o regresso do filho pródigo, o filho mais velho diz ao pai que nunca recebeu nada dele? Se houvesse partilha dos bens, teria o filho mais velho recebido a sua parte, e não se poderia queixar.
O texto grego não se refere à partilha dos bens, fala da parte da natureza (ousia) que ao jovem convém. Isto é, o jovem reclama o direito da sua juventude, insiste na sua liberdade pessoal de jovem independente, faz valer o direito de não mais ser criança dependente, mas adolescente autônomo. Pede um modo de vida conveniente (epibállon) a sua natureza de jovem.
O pai reconhece, em silêncio, essa conveniência; não protesta, não dissuade o jovem com nenhuma palavra; reconhece que ele deve iniciar a fase da sua adolescência. Também não aparece nenhuma mãe chorando e dissuadindo o filho de gozar os direitos da sua mocidade independente.
Em silêncio, “o pai dividiu entre eles a vida” (bios). A palavra grega “bios” quer dizer “vida”, onde a Vulgata Latina repete a mesma palavra “substância”.
O pai dividiu a vida (bios) entre os dois filhos: o mais velho continua na sua vida dependente, o mais novo inicia uma vida independente. Ou seja: o filho mais novo desperta para o segundo estágio da evolução hominal, deixa de ser criança inexperiente, e passa a ser um jovem experiente da sua ego-personalidade ao passo que seu irmão mais velho continua estagnado no plano do seu infra-ego inexperiente; não comeu ainda do “fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal”, como diria Moisés.