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domingo, 29 de maio de 2011

A droga não liberta, escraviza


A DROGA NÃO LIBERTA, ESCRAVIZA

I - INTRODUÇÃO

O uso de entorpecentes constitui um grande problema atual que preocupa pais, professores, médicos e autoridades, pelos terríveis maléficios que causam ao indivíduo, à família e à sociedade.

Como a droga leva, geralmente, ao vício e à dependência, o seu consumo é compulsório, independentemente da situação de cada um. Quem tem recursos adquire-a e quem não tem rouba para adquirí-la. A droga é adquirida e consumida a qualquer custo.

O problema se agrava com a necessidade premente que o dependente sente, porque possibilita um comércio rendoso e clandestino, que se impõe à força, de forma abusiva e prepotente. Quadrilhas organizadas e armadas, sem qualquer escrúpulo e sem o menor respeito à vida, aos poderes constituídos, às leis vigentes, cultivam plantas entorpecentes, preparam e refinam drogas e distribuem para os postos de venda instalados em vários países consumidores.

Tudo isto que está ocorrendo no mundo inteiro é fruto do materialismo grosseiro, impiedoso, escravizante e destruidor, insistentemente combatido por Allan Kardec em suas obras, por ser o verdadeiro ópio do povo. O materialismo enfraquece a vontade, oblitera a mente e conspurca os sentimentos da criatura humana, alienando-a da realidade da existência.

Os gozadores movimentam e sofisticam os seus instintos para melhor aproveitamento de tudo aquilo que o mundo oferece. E muitos não contentes com o que têm e não conseguindo alcançar o paraíso terrestres, em virtude dos inúmeros problemas naturais decorrentes da própria existência, buscam o reino fantástico através da imaginação distorcida.

Aqui, apresentamos também o enfoque espírita, mostrando em todos eles, as desvantagens do uso de drogas pelo desconforto que causam ao organismo e à mente, com consequências indesejáveis. No enfoque espírita damos um novo conceito de vida, mostrando suas grandes perspectivas, com a sua valorização no presente. A vida é o maior bem e temos que preservá-lo.

Natalino D'Olivo

1 - USO

O uso das drogas vem de um passado remoto. Nas civilizações antigas, como as da Índia, China, Pérsia e Egito, encontramos referências sobre o uso do ópio. Basta dizer que a maconha era conhecida pelos gregos há 5 mil anos e usada na China há 4 mil anos. A droga era usada para acalmar a dor, para provocar euforia nas orgias ou êxtase ou alucinações nos rituais religiosos. Até hoje, nas comunidades primitivas é usada com essa finalidade.

2 - DIVULGAÇÃO

A cocaína foi introduzida na Europa a partir do século XIX, cujo uso foi difundido por todo o mundo de forma abusiva. A maconha, conhecida na Índia há 2 mil anos a.C. foi transportada para o Oriente Médio, sendo posteriormente, introduzida no Norte da África através das invasões árabes nos séculos IX e XII.

3 - CULTIVO

As drogas atualmente são cultivadas em vários países do mundo: ópio (Irã, Índia, Turquia, Laos, China e Ásia Menor); cocaína (Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Chile, Argentina, Brasil); maconha (México, Colômbia, Marrocos, Líbano, Índia, Brasil); tabaco (Cuba, Brasil, Java, Sumatra, Estados Unidos, Turquia e Ásia Menor).

4 - O QUE É TÓXICO?

"Tóxico" é qualquer substância de origem animal, vegetal ou mineral, que introduzida em quantidade suficiente num organismo vivo, produz efeitos maléficos, podendo ocasionar a morte, em casos extremos.

5 - TÓXICO E PSICOTRÓPICO

Qual a diferença entre tóxico e psicotrópico? Todo o psicotrópico tem uma atuação na mente e no organismo, o que não ocorre com alguns tóxicos. Muitos venenos são tremendos tóxicos, cuja dose mínima chega a provocar a morte, mas não alteram a normalidade da mente, como, por exemplo: a formicida tatu, a estricnina, o arsênico, etc...

6 - TIPOS

Temos vários tipos de drogas: estimulantes, entorpecentes e alucinógenos. Os estimulantes aceleram o funcionamento do sistema nervoso central, como a cafeína, a anfetamina e a cocaína. Os entorpecentes são os tranquilizantes, os anestésicos e os soníferos. São também chamados de depressores ou psicoléticos. Também atuam no sistema nervoso central e diminuem a sua atividade mental e deprimem as tensões emocionais. Os entorpecentes mais conhecidos são: ópio, cocaína, morfina, heroína, codeína, álcool, barbitúricos, sedativos. E também os inalantes: éter, lança-perfume, clorofórmio, solventes de tintas, gasolina, cola de sapateiro, etc.. Os alucinógenos, denominados de perturbadores e psicodiléticos porque causam alucinações e despersonalização. Não aceleram nem diminuem a atividade do cérebro, mudando tudo aquilo que os nossos sentimentos captam. São os seguintes: maconha, peiote, LSD-25, STP, mescalina e psilocibina.

7 - EFEITOS GERAIS

Os efeitos das drogas são desagradáveis, embora inicialmente possam dar uma sensação de bem-estar. Os efeitos desagradáveis decorrem da dependência física e psíquica que elas provocam. A dependência física altera a química do organismo, tornando-se indispensável ao indivíduo e a psíquica, quando o indivíduo não usa a droga, deixa em lastimável estado de depressão, abatimento, desânimo e fossa, perdendo o interesse pelo trabalho, pelo estudo e pela vida.

8 - TOLERÂNCIA

A fase chamada de tolerância é aquela em que o organismo se adapta, passando a reagir com exigência da substância tornando-se dependente. E com a tolerância do organismo, o viciado aumenta a dose provocando sua morte. A tolerância leva à dependência e daí a busca desesperada da droga. Busca-a no desespero da fome ou da sede.

9 - O ABUSO DE TÓXICOS DEIXA EFEITOS NO FETO?

"Crianças nascidas de mães dependentes de heroína mostram sintomas de dependência da droga. A respeito de outras drogas há ainda controvérsia no campo da genética. A grande maioria de médicos, hoje porém, inclina a afirmar que tomar entorpecentes durante a gestação é perigoso; é capaz de criar certa dependência à droga já no feto. Com o uso de LSD, um número respeitável de cientistas reporta fragmentação cromossomal tanto em animais como no homem. Muitos afirmam que o LSD em si é capaz de causar anormalidades congênitas no feto. A maconha vem sendo estudada: há indícios de que causa danos cromossomais no feto porque em animais de laboratório (em ratos, camundongos e coelhos) já se registraram tais danos. A mescalina (cujo uso toma vulto no Brasil) produziu anormalidades fatais em cobaias. Estudos feitos indicam que a maconha, se for dada a um animal em estado de gestação, atravessa a placenta; assim, a maconha fumada durante a gravidez poderá ter efeitos adversos sobre o feto. É óbvio que ainda se precisa de muitos dados para que se possa fazer um julgamento definitivo. Conclusão: é importante salientar que as drogas podem causar danos cromossomais ou dano ao feto sem anormalidade cromossomal.

10 - DROGADO É UM DOENTE

"A Organização Mundial da Saúde considera o viciado em narcótico um doente, que deve ser tratado. O vício em narcótico não é uma doença incurável. A prática de encerrar um toxicômano numa cela e deixá-lo sem assistência, sofrendo os efeitos da síndrome de abstinência, é tão cruel quanto ineficaz. Existem, hoje, medicamentos que aliviam os sintomas decorrentes da ausência da droga e dão oportunidade a que se faça concomitantemente, um tratamento psicológico que leva o indivíduo a reintegrar-se na sociedade".

11 - QUANDO O PROBLEMA É DA POLÍCIA

"Frequentemente, o viciado comete atos criminosos, na ânsia de obter recursos para adquirir a droga. É por causa deste aspecto que o problema cai no âmbito policial. O vício é propagado principalmente pelos próprios traficantes, que procuram ganhar a confiança de pessoas imaturas ou desajustadas para induzi-las ao uso de drogas. O passo seguinte é usar o novo viciado para, por sua vez, conquistar novos adeptos, sob a pena de não receber sua quota de droga. Com a arma de chantagem, estende-se assim a rede de distribuidores. O problema, portanto, tem de ser abordado de dois ângulos: tratamento dos que são viciados e esforços para impedir a propagação do vício".

12 - É O VICIADO UM INDIVÍDUO PERIGOSO?

"Em decorrência da dependência física, qualquer viciado pode tornar-se violento para conseguir uma dose da droga e livrar-se dos sofrimentos da síndrome de abstinência. Assim, na maioria dos casos, o sujeito pode tornar-se violento, por influência indireta da droga. Este porém, não é o caso da cocaína, que induz diretamente o indivíduo à violência. A ela se deve a imagem do viciado como um sujeito agressivo, pronto a cometer um crime a qualquer provocação. Embora não produza dependência física, a cocaína condiciona rapidamente intensa dependência psíquica, pois a euforia que provoca é imediatamente seguida por profunda depressão, que só é aliviada por nova dose. A cocaína provoca dilatação das pupilas, aceleração do pulso, redução do cansaço, euforia, insônia, alucinações. Tomada por boca produz anestesia local da mucosa do estômago, de modo que não atenua a fome e a sede. Geralmente o viciado inala cocaína como o rapé, para que ela seja absorvida pela mucosa que reveste as fossas nasais. Sob sua influência, o sujeito fica agitado e excitado, com uma sensação eufórica de grande poder físico e mental. Os viciados em cocaína são medrosos e, frequentemente, acreditam que estão sendo perseguidos. Para se defender, andam muitas vezes armados e sob a influência de suas alucinações, frequentemente se tornam assassinos. Essas alucinações assemelham-se muito aos delírios que formam o quadro de uma doença mental grave, a esquizofrenia paranóide, na qual o indivíduo acredita que está sendo continuamente perseguido; para defender-se pode tornar-se perigoso.

13 - CLASSIFICAÇÃO DOS TÓXICOS

A - Morfina e seus derivados: heroína, dilaudid, dicodid, dromeran, colantina, polamidon, heptalgin, etc..

B - Opiáceos e seus equivalentes sintéticos.

C - Hipnóticos e analgésicos: barbitúricos, optalidon, doriden, neludar, saridon, fenacetina, spaltina, etc...

D - Aminas psicoanaléticas ou anfetaminas: psico-estimulantes, dexedrina, pervitin, simpatina, propisamin, etc..

E - Alucinógenos ou psicomiméticos ou psicodélicos: ácido lisérgico ou LSD, mescalina, maconha e suas variedades, haxixe, ou marijuana.

F - Outras drogas: cola de sapateiro, cocaína, álcool, etc...

II - AS DROGAS QUE CAUSAM DEPENDÊNCIA

1 - O TÓXICO: O assunto é extremamente atual; todos os dias os jornais, rádios ou canais de televisão, veiculam notícias sobre drogas; a dimensão do problema envolve verbas de 150 bilhões de dólares por ano e atinge milhões de pessoas em todo o mundo. Segundo a Organização Mundial de Saúde, droga é toda substância natural ou sintética, que introduzida no organismo vivo, pode modificar uma ou mais funções. Desta forma, uma simples aspirina ou um "cafézinho", veiculam substâncias que modificam nossas funções orgânicas, causando alterações circulatórias e hemodinâmicas. Existem drogas que podem ser usadas para alterar as sensações e percepções orgânicas e que levam o indivíduo ao hábito de consumí-las, se tornando um dependente ou mesmo como vulgarmente denominado um "viciado". Tóxico vem da palavra grega "toxicon" (veneno) e significa todo e qualquer veneno celular, que interrompa as funções normais das células; como o crescimento, o metabolismo e a reprodução, a vida média e a atividade específica. Portanto, nem toda a droga é tóxico, e nem todo o tóxico é droga.

2 - DEPENDÊNCIA PSÍQUICA E FÍSICA: As drogas que causam dependência são classificadas em dois tipos: A-as que causam psíquica (exemplo: cocaína, maconha, anfetaminas, benzodiazepínicos, tabaco); B- e as que causam dependência física (exemplo: álcool, ópio, morfina). Dependência psíquica é um sentimento de satisfação e impulso que requer a administração periódica ou continuada da droga, para produzir prazer ou evitar desconforto. Dependência física é um estado de adaptação do organismo ao uso de drogas e que quando suspensas causam uma série de perturbações que chamamos "síndrome de abstinência", ou seja um conjunto de sinais e sintomas que aparecem quando o dependente deixa de usar a droga. São característicos para cada droga e incluem sintomas como vômitos, diarréia, convulsões, alterações na pele, além de ansiedade e agitação psíquica intensa. Um caso clássico vemos no alcoolismo, onde o alcoólatra que pára de beber, nas primeiras semanas apresenta intensos sintomas orgânicos pela ausência do álcool. Cabe ressaltar que toda dependência física é precedida ou antecipada pela dependência psicológica. Outro aspecto extremamente importante é o fato de que certas drogas desenvolvem o fenômeno da tolerância, ou seja, a necessidade de se aumentar a dose da droga para se obter o mesmo efeito, levando o usuário habitual a consumir doses letais para obter os mesmos efeitos psíquicos e/ou orgânicos, exemplo: opiáceos, alucinógenos. Disto decore o grande risco da overdose, ou seja, uma dose excessivamente alta e que resulta na morte do dependente em geral de parada cardio-respiratória.

3 - OS EFEITOS DO ALCOOLISMO: O alcoolismo pode ainda causar lesões no feto que se desenvolve, se a gestante for uma alcoólatra, resultando na síndrome de alcoolismo fetal, que causa deficiência mental ou atraso de desenvolvimento em 89% dos casos, microencefalia em 93% dos casos e defeitos cardíacos em 49% dos casos. Além dos aspectos clínicos que se desenvolvem nos dependentes, devemos analisar as graves consequências sociais do uso das drogas que são: a criminalidade, a violência, o aumento do número de acidentes nas estradas e no trabalho, levando em muitos casos a lesões deformantes e encapacitantes para o resto da vida. Vemos também consequências familiares, como o abandono do lar e o mau exemplo para os filhos. Este é o motivo deste assunto estar sendo discutido, para que sirva de alerta para toda juventude, que existe sempre a1ª. dose, pois ela é o passaporte para o inferno das drogas.

III - DROGA: UM PROBLEMA SOCIAL

1 - MOTIVOS: Diversos são os motivos que levam uma pessoa a consumir drogas e se tornar toxicômano: curiosidade, ociosidade, aventuras, contestação, fuga, moda, inibição, desunião da família, mau exemplo dos pais, estado de abandono, solidão, depressão, ansiedade, fraqueza moral, personalidade psicopática, influência do grupo, hedonismo (busca do prazer), comércio ilegal, e máfia organizada e criminosa que se impõe pelo poder do dinheiro e das armas poderosas e sofisticadas, num verdadeiro desafio à lei e às autoridades constituídas.

2 - FAMÍLIA: O dependente de drogas, além de estar física e mentalmente prejudicado, traz inúmeros problemas para a família e para a sociedade. A família dificilmente conta ele, se for adulto, para o equilíbrio do orçamento, pois ele constantemente está desempregado. E se estiver numa fase crônica, nem trabalhar pode, que exige da família constantes cuidados. Se o dependente é estudante, falta às aulas, não se interessando pela escola; cria atritos, encrencas e provoca brigas; busca outras formas de vício, busca desesperadamente o dinheiro para comprar a droga e quando não consegue, parte para o roubo gerando, sem dúvida, um problema social para a família e para a comunidade, porque envolve outras pessoas forçando a interferência da polícia. O dependente precisa de um médico, de apoio e de um acompanhamento permanente para evitar que o mesmo se complique e não cometa suicídio ou homicídio. Além de não poder contar com ele para nada, ainda tem os imprevistos desagradáveis de sua dependência. A família fica angustiada, preocupada, temerosa e inquieta. O problema da sobrevivência é agravado com os desequilíbrios naturais e inevitáveis decorrentes da preocupação com o dependente.

3 - TRAFICANTES: A responsabilidade maior é dos traficantes que procuram, através de intermediários menores, conscientizar a população jovem, distribuindo até de graça para que se torne dependente sem qualquer despesas. Eles sabem que o faturamento mesmo vem com a dependência, o consumo é obrigatório. E por esta razão a mercadoria se torna cara. A ambição pelo dinheiro e pela riqueza fácil, à custa da miséria moral de milhares de criaturas. Criaturas cristalizadas no vício da luxúria chegam ao ponto de perder o bom-senso, a vergonha e o caráter. Perdem a consciência de seus valores como gente, como criatura humana, não sabendo mais distinguir o que é certo e o que é errado. Basta ver a violência desencadeada no mundo da máfia, que nunca foi tão intensa como nos tempos atuais. Não obstante a apreensão de drogas, principalmente a cocaina e de maconha, a destruição de plantas, de laboratórios e a prisão de muitos chefões da máfia, o comércio clandestino continua, lamentavelmente.

4 - POPULAÇÃO DROGADA: A população drogada está crescendo e o consumo aumentando. Em consequência os problemas triplicam, exigindo dos poderes públicos leis mais severas e uma atuação conjunta mais intensa. As estatísticas sobre a difusão e o uso de drogas são alarmantes. Milhares de jovens morreram em consequência do seu uso. Diante de um problema tão grave, resta-nos apelar para as autoridades para que adotem mecanismos mais rígidos de controle e fiscalização, através de órgãos já criados, tornando inafiançável o crime de produção, fabricação, transporte e comércio. A nosso ver, a multa, ou a fiança, não podem substituir a pena de reclusão e o confisco dos bens.

5 - DROGAS: UMA OPÇÃO PARA A MORTE: A droga vicia, destrói o organismo e mata em pouco tempo, conforme a regularidade do consumo e a dose, razão pela qual o problema "droga" se tornou social, preocupando pais, professores e autoridades. É lamentável que a grande parte de nossa juventude, diante de tantas perspectivas de vida e de realização tenha optado pelas drogas, ou entorpecentes, ou melhor dizendo, pela morte. A opção pela morte é sintoma de desintegração da própria personalidade. Quando não se tem consciência de si, de seus valores, a vida não representa muita coisa. Viver ou morrer é simplesmente uma opção casual.

IV - COMO O ESPIRITISMO ENFOCA O PROBLEMA

1 - A ESTRUTURA DOS SERES ORGANIZADOS: A estrutura dos seres organizados bem como o seu funcionamento revelam uma sabedoria inigualável. Quem estuda a engenharia do corpo humano em todos os seus detalhes não esconde a sua admiração pela beleza e perfeição da forma como a máquina humana foi montada. A perfeição com que a matéria foi organizada induz a aceitar um princípio inteligente organizador. Tudo no universo nos leva a conceber uma inteligência superior. Por quê? É fácil entender. O conhecimento que o homem adquire no estudo das coisas e que lhe dá a característica de sábio não é maior do que a sabedoria que o objeto encerra, como por exemplo corpo humano e todas as coisas do universo. Na ordem das coisas, qual é o maior: o conhecimento que o homem adquire ou o objeto que lhe dá o conhecimento? O conhecimento das leis ou as próprias leis? O homem não inventa leis, apenas as descobre. E quem é o maior: quem descobre ou quem cria? E se o homem é importante por aquilo que conhece e faz, então aquele que criou as coisas e as leis que a regem é maior, infinitamente maior. É superior aquele que cria o objeto que forma a matéria do conhecimento humano. Deus é sábio e revelou sua sabedoria através da criação e de suas leis. O homem é inteligente e tem conhecimento das coisas que Deus cria.

2 - CAUSA PRIMÁRIA DAS COISAS: Deu é sábio e ninguém pode negar esta realidade a menos que negue sua própria existência, seu próprio saber. O homem é alguma coisa porque existe o TODO. Ele não pode negar a fonte de seu conhecimento. Se o homem cresce no conhecimento das coisas e se torna sábio mais sábio é aquele que propiciou o saber. "Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas". Desta forma, quem procura o conhecimento das coisas com seriedade, encontra Deus, visto que o criador não está ausente de sua obra.

3 - O ESPÍRITO: Quem descobre a sabedoria de Deus ou de uma inteligência superior no estudo das coisas, descobre o espírito, que é o princípio inteligente do universo. Como princípio, o espírito está ligado a todas as coisas. Deus é transcendente e imanente a tudo. Existe o espírito individualizado. Essa individualização carateriza o espírito com uma determinada forma. Essa forma é uma conquista milenária. A forma, ou o corpo, melhor dizendo é o instrumento pelo qual o princípio inteligente se individualiza, tornando-se espírito, quando lhe são despertados, pelas experiências, da ação e reação, alguns atributos indispensáveis ao seu progresso como a inteligência, a sensibilidade, o livre-arbítrio e a responsabilidade.

4 - LIVRE-ARBÍTRIO: Enquanto o ser organizado está vivendo na faixa inferior do instinto somente, não passa de autômato. O instinto é que dirige tudo, e atende as duas necessidades básicas: a sobrevivência física através da defesa, da alimentação e da procriação. Quando o espírito passa a habitar a forma humana pelo natural progresso, é que começa propriamente o seu progresso espiritual, visto que o livre-arbítrio caracteriza sua individualidade. A personalidade se firma através da liberdade. É condição intrínsica da natureza. Não há progresso, sem liberdade. Nenhum ser se acomoda e aceita pacificamente um sistema de dependência e subjugação.

5 - RESPONSABILIDADE: A liberdade é atributo do espírito e nenhum ser progride sem ela. Por outro lado, a liberdade tem um preço: a responsabilidade. O homem vive em comunidade, em sociedade. É impossível a sua existência fora de um comportamento organizado. Ora, se vivemos em sociedade e estamos, todos, submetidos a um comportamento organizado pelas leis já estabelecidas pela sociedade, conquistadas através de séculos, não podemos viver sem responsabilidade. Nossa liberdade é relativa e limitada, visto que ela determina direitos e deveres e esses direitos assegurados pela lei determinada pelo princípio de liberdade não podem ferir os direitos do nossos semelhantes. Nossa liberdade é uma conquista de milênios,mas com ela está vinculada a responsabilidade. Liberdade fora de um comportamento organizado é anarquismo e não se pode desta forma pretender nenhum progresso, visto que invadimos a esfera do companheiro que tem os mesmos direitos e que faz jus ao exercício e a prática de suas conquistas. A prepotência e o egoísmo, infelizmente, não impedem essa invasão. A ditadura e a tirania são consequências do excesso de liberdade sem responsabilidade, no exercício do poder. Assim como a sociedade padece as consequências de um liberalismo desenfreado, desarmonizando tudo, assim também ocorre com o indivíduo relativamente ao seu corpo.

6 - A NATUREZA: A grande educadora Maria Montessori disse que na Natureza não há castigos nem prêmios, mas consequências. Seu pensamento está em perfeita sintonia com o Espiritismo quando este estuda alei de causa e efeito e afirma que o homem é artífice do seu destino, sofrendo as consequências naturais do seu livre-arbítrio.

7 - MAU USO DAS COISAS: Diante da liberdade das ações e do determinismo das consequências, é muito bom e recomendável meditar com profundidade sobre o uso das coisas. Tudo o que foi criado por Deus tem uma finalidade. Cada coisa deve ser usada de conformidade com sua finalidade. A forma errada de usar as coisas geralmente traz desequilíbrio para o corpo e para o espírito. Ninguém ignora isto. É um fato incontestável. Entretanto, há muitas pessoas, que, em virtude de uma personalidade estranha, desequilibrada, esquizofrênica, gostam de usar as coisas de forma contrária, o que gera uma desarmonia no comportamento organizado e agride a sociedade em que vive. Quanta gente faz mau uso das coisas. O mau uso da alimentação, da inteligência, do amor, do sexo, dos instrumentos criados para o desenvolvimento da vida. É claro que ninguém está isento da responsabilidade no mau uso das coisas. As consequências virão inevitavelmente mais cedo ou mais tarde. Elas virão em forma de desequilíbrio, de doenças, de desgostos, de frustrações, de mal-estar, de fracasso, etc...

8 - A VIDA É IMORTAL: A vida é imortal. A sabedoria divina criou a vida para ser eterna, porque eterno é o princípio da vida. A desintegração do corpo por ocasião da morte não significa desintegração do espírito. Se o espírito é o princípio que engendra e organiza o corpo, está claro que está além do organizado. Ele transcende à organização física. O espírito existe antes de nascer e sobrevive após a morte. Não vamos aqui apresentar toda a nossa argumentação científica e filosófica para provar isto.Falamos inicialmente sobre a sabedoria divina. A ciência nos fala da imortalidade do espírito pelas experiências levadas a efeito nas pesquisas e pelo contato que tivemos com eles em inúmeras reuniões.

9 - A REENCARNAÇÃO: A reencarnação é a volta do espírito ao corpo material, com o objetivo de realizar novo aprendizado para enriquecimento de sua vida. Ao mesmo tempo em que resgata o passado, aprende novas coisas. A reencarnação é um princípio da natureza que permite a educação e reeducação do indivíduo, sem o que ele não se libertará dos erros e da matéria. Esse processo não constitui forma de punição, mas um recurso da natureza para renovar e melhorar o ser.

10 - ESTIMAS: Quando o espírito retorna à matéria, o seu corpo perispiritual transmite ao corpo material estigmas causados pelo seu desequilíbrio em vida anterior. Toda a ação do espírito fica gravada nesse corpo espiritual, à semelhança de um disco. É o subconsciente que armazena conhecimentos e experiências do passado, recente e remoto, que estruturam a personalidade. A herança cultural, recebida e adquirida através dos séculos, constitui a estrutura psíquica que sustenta a forma de pensar, sentir e agir. O corpo, tomado pelo espírito desde o primeiro momento de sua formação, recebe a sua influência. O corpo em formação se amolda ao corpo espiritual.

11 - O DESTINO DA MATÉRIA APÓS A MORTE: A vida que defendemos e que todos defendem, consciente e inconscientemente, representa tudo. Vida é vida, na Terra ou em qualquer parte do universo e é em torno dela que todos os problemas giram. O que seria o universo sem a vida? Seria o caos, o nada. Ser é viver. Ser a vida é tudo, temos de valorizá-la. A morte é o não ser. Mas morte não existiria se a vida não existisse. Por isto a morte confirma a vida. Ela não é real. É simplesmente uma transição da vida. É a causa que se retrai omitindo o fenômeno ou a aparência. A vida tem que ser julgada pela vida e não pela morte, mas esta nos fala da importância daquela. Após a morte do ser orgânico, os elementos que o formam passam novas combinações, constituindo novos seres, que haurem na fonte universal o princípio da vida e da atividade, absorvendo-o e assimilando-o, para novamente o desenvolverem a essa fonte, logo que deixarem de existir. A atividade do princípio vital é alimentada durante a vida pela ação do funcionamento dos órgãos, do mesmo modo que o calor, pelo movimento de rotação de uma roda. Cessada aquela ação, por motivo da morte, o princípio vital se extingue, como o calor, quando a roda deixa de girar.

12 - A DROGA NÃO LIBERTA, ESCRAVIZA: Ledo engano daqueles que pretendem se libertar através de drogas. A natureza não dá saltos. A evolução do ser é muito lenta e se processa pelo domínio de si mesmo e das coisas pelo conhecimento sem violência. É fugaz a liberdade experimentada pelo uso de drogas. O preço dessa suposta libertação é muito alto, pois, além de grandes riscos conduz a uma dependência escravizante e vergonhosa, somente uma inteligência apoucada buscaria sua liberdade por um processo tão esdrúxulo e mesquinho. Não é esse o processo proposto pelos grandes mestres da vida. Sabemos que a libertação enseja clima de felicidade, mas o caminho é bem diferente. Uma pequena mensagem de Rubens Romanelli, pela psicografia de Euricledes Formiga, esclarece bem o nosso pensamento: "O homem que encontrou a si mesmo descobriu o segredo da felicidade. Aprendeu a remover o que já não era mais ele ou dele, a renovar-se no belo, em elevação, na plenitude da visão interior iluminada pela presença de Deus, pois estabelece, a partir daí, a ligação com os transcendente, o eterno, o puro, o ser feliz"!

A Parábola dos Talentos e a Lei do Progresso





A Parábola dos Talentos
e a
Lei do Progresso
Jesus
Mateus, XXV,14-30
e
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
Cap. VI, Obra codificada por Allan Kardec

Pesquisa: E. Mollo


1 - A parábola dos "talentos" (Mateus, XXV,14-30)
Porque assim é como um homem que, ao ausentar-se para bem longe, chamou os seus servos e lhes entregou os seus bens.
E deu a um cinco talentos, e a outro dois, e a outro deu um, a cada um segundo a sua capacidade, e partiu logo.
O que recebera pois cinco talentos, foi-se, e entrou a negociar com eles e ganhou outros cinco.
Da mesma sorte também o que recebera dois ganhou outros dois.
Mas o que havia recebido um, indo-se com ele, cavou na terra, e escondeu ali o dinheiro de seu senhor.
E passando muito tempo, veio o senhor daqueles servos e chamou-os a contas.
E chegando a ele o que havia recebido os cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco talentos dizendo: Senhor, tu me entregaste cinco talentos, eis aqui tens outros cinco mais que lucrei.
Seu senhor lhe disse: Muito bem servo bom e fiel, já que foste fiel nas coisas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes; entra no gozo de teu senhor.
Da mesma sorte apresentou-se também o que havia recebido dois talentos, e disse: Senhor, tu me entregaste dois talentos, eis aqui tens outros dois que ganhei com eles.
Seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel, já que foste fiel nas coisas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes; entra no gozo de teu senhor.
E chegando também o que havia recebido um talento, disse: Senhor, sei que és um homem de rija condição; segas onde não semeaste, e recolhes onde não espalhaste; e temendo me fui, e escondi o teu talento na terra; eis aqui tens o que é teu.
E respondendo, seu senhor lhe disse: Servo mau e preguiçoso sabias que sego onde não semeei, e que recolho onde não tenho espalhado; devias logo dar o meu dinheiro aos banqueiros, e, vindo eu, teria recebido certamente com juro o que era meu.
Tirai-lhe, pois o talento, e dai-o ao que tem dez talentos; porque a todo o que já tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; e a ao que não tem, tirar-se-lhe-á até o que parece que tem.
E ao servo inútil lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.
2 - O que é talento:
- moeda antiga usada no tempo do Cristo na Grécia e em Roma;
3 - A essência da parábola dos talentos, isto é, os ensinamentos morais que ela encerra segundo Jesus:
- os dois primeiros servos, que receberam cinco e dois talentos respectivamente, representam os homens que sabem cumprir bem seus deveres na terra, desenvolvendo os dons que a Misericórdia do Pai lhes concedeu e, o servo que recebeu um talento e o enterrou deixando-o improdutivo, representam os homens que com medo de enfrentar todas as vicissitudes da vida, se escondem na ociosidade ou se deixam dominar por outras criaturas, perdendo a oportunidade de multiplicar seu único talento, que é o melhor momento que o Pai lhes concede a fim de desenvolverem suas potencialidades intelectuais e espirituais.
4 - Segundo a Doutrina dos Espíritos:
- o homem que as distribui é Deus;
- os servos são os espíritos que encarnam na terra;
- ao encarnar-se, segundo o processo que realizou, cada espírito traz uma tarefa a cumprir em benefício de seus semelhantes;
- a uns é concedida uma tarefa de repercussão ampla;
- outros apenas no seio da família;
- mas todos trazem uma tarefa a cumprir;
- os homens que cumprem bem suas tarefas na terra são os que multiplicam os talentos e os que deixam de cumpri-la são os que enterram os talentos.
5 - Outros exemplos:
-os 5 talentos: SAÚDE, RIQUEZA, HABILIDADE, DISCERNIMENTO E AUTORIDADE
a) talento SAÚDE
Respeitando a SAÚDE, adquiriremos o TEMPO
b) talento RIQUEZA
Espalhando a RIQUEZA, aliciaremos a GRATIDÃO
c) talento HABILIDADE
Usando a HABILIDADE, receberemos a ESTIMA
d) talento DISCERNIMENTO
Movimentando o DISCERNIMENTO, conquistaremos o EQUILÍBRIO
e) talento AUTORIDADE
Distribuindo a AUTORIDADE de maneira equilibrada, ganharemos a ORDEM
- os dois talentos: INTELIGÊNCIA E PODER
a) talento INTELIGÊNCIA
Elevando a INTELIGÊNCIA, obteremos o TRABALHO
b) talento PODER
Submetendo o PODER a sábia vontade do Pai, atrairemos o PROGRESSO
- o único talento: A DOR
- são as dificuldades que se encontram pelos caminhos da vida e, que o desânimo ocasiona no viajor desatento: a preguiça, o medo; de trabalhar, de servir, de fazer amizades, de desapontar, etc. ocasionando a SUBSERVIÊNCIA, que também é um grande empecilho na multiplicação deste talento, e que é o motivo de desenvolvermos está exposição.
6 - o significado da palavra subserviência:
- servilismo, bajulação, adesão, anuência, condescendência servil, submissão voluntária a alguém ou alguma coisa.
7- Motivos em que a subserviência impede a multiplicação do talento:
- através da bajulação; por não ter coragem de mostrar os pontos de vistas e os conhecimentos próprios, por medo de ser criticado;
- através da submissão voluntária, por não ter coragem de enfrentar (no bom sentido)(*) com sua maneira de pensar E agir;
- o companheiro ou a companheira;
- o pai ou a mãe;
- o irmão ou a irmã;
- seus superiores no seu local de trabalho;
- o enfrentar a vida sozinho, etc. e etc.
(*) Esse enfrentamento, não significa que devemos ofender alguém, e sim, de mostrar - através de diálogos ou exemplos - que esse alguém, com suas atitudes, está impedindo que outras criaturas desenvolvam seus talentos, mesmo tendo, às vezes, de sermos enérgicos, e essa energia não pode ser ofensiva, mas educativa.
8 - A subserviência impede:
- a oportunidade de corrigir a diminuição humilhante do sexo feminino, típica das sociedades patriarcais;
- o desenvolvimento de uma empresa, um estado, um país, etc., por não ter a devida coragem de impor uma idéia, uma atitude;
- o desenvolvimento das potencialidades mentais;
- o não cumprimento dos próprios desígnios do Pai;
9 - Algumas soluções:
(Frases de Emmanuel in O Consolador)
- o conceito igualitário absoluto é impossível no mundo, dada a heterogeneidade das tendências, sentimentos e posições evolutivas no círculo da individualidade. A FRATERNIDADE, PORÉM, É A LEI DA ASSISTÊNCIA MÚTUA E DA SOLIDARIEDADE COMUM, SEM A QUAL TODO PROGRESSO, NO PLANETA, SERIA PRATICAMENTE IMPOSSÍVEL.
- A fraternidade pode traduzir-se por cooperação sincera legítima, em todos os trabalhos da vida, e em toda cooperação verdadeira, o personalismo não pode subsistir, salientando-se que quem coopera cede sempre alguma coisa de si mesmo, dando o testemunho de abnegação, sem a qual a fraternidade não se manifestaria no mundo, de modo algum.
- Amar a nós mesmos não será a vulgarização de uma nova teoria de auto-adoração. Para nós outros, a egolatria já teve o seu fim, porque o nosso problema é de iluminação íntima, na marcha para Deus. Esse amor, portanto, deve traduzir-se em esforço próprio, em auto-educação, em observação do dever, em obediência às leis de realização e de trabalho, em perseverança na fé, em desejo sincero de aprender com o único Mestre, que é Jesus.
- Quem se ilumina, cumpre a missão da luz sobre a Terra. E a luz não necessita de outros processos para revelar a verdade, senão o de irradiar espontaneamente o tesouro de si mesma.
- O amor é a lei própria da vida e, sob o seu domínio sagrado, todas as criaturas e todas as coisas se reúnem ao Criador, dentro do plano grandioso da unidade universal.
- No caminho dos homens é ainda o amor que preside a todas as atividades da existência em família e em sociedade.
* * *

DA LEI DO PROGRESSO
Estudo com base in O LIVRO DOS ESPÍRITOS - Livro 3 - Cap. VI, questões de 776 à 785
Obra codificada por Allan Kardec
Estado da natureza
Não são coisas idênticas o estado de natureza e a lei natural, o estado de natureza é o estado primitivo. A civilização é incompatível com o estado de natureza, ao passo que a lei natural contribui para o progresso da Humanidade. (776)
NOTA DE ALLAN KARDEC: O estado de natureza é a infância da Humanidade e o ponto de partida do seu desenvolvimento intelectual e moral. Sendo perfectível e trazendo em si o gérmen do seu aperfeiçoamento, o homem não foi destinado a viver perpetuamente no estado de natureza, como não o foi a viver eternamente na infância. Aquele estado é transitório para o homem, que dele sai por virtude do progresso e da civilização. A lei natural, ao contrário, rege a Humanidade inteira e o homem se melhora à medida que melhor a compreende e pratica.
O homem, no estado de natureza tem menos necessidades, se acha isento das tribulações que para si mesmo cria do que num estado de maior adiantamento. É a felicidade do bruto. É ser feliz à maneira dos animais. As crianças também são mais felizes do que os homens feitos. (777)
O homem não pode retrogradar para o estado de natureza, o homem tem que progredir incessantemente e não pode volver ao estado de infância. Desde que progride, é porque Deus assim o quer. Pensar que possa retrogradar à sua primitiva condição fora negar a lei do progresso. (778)
Marcha do progresso
O homem se desenvolve por si mesmo, naturalmente. Mas, nem todos progridem simultaneamente e do mesmo modo. Dá-se então que os mais adiantados auxiliam o progresso dos outros, por meio do contacto social. (779)
O progresso moral decorre do progresso intelectual, mas nem sempre o segue imediatamente. O progresso intelectual pode engendrar o progresso moral fazendo compreensíveis o bem e o mal. O homem, desde então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio acompanha o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos. Muitas vezes, sucede serem os povos mais instruídos os mais pervertidos. Contudo, o progresso completo constitui o objetivo. Os povos, porém, como os indivíduos, só passo a passo o atingem. Enquanto não se lhes haja desenvolvido o senso moral, pode mesmo acontecer que se sirvam da inteligência para a prática do mal. O moral e a inteligência são duas forças que só com o tempo chegam a equilibrar-se. (192-365-751-780)
O homem não tem o poder de paralisar a marcha do progresso, mas tem, às vezes, o de embaraçá-la. Os que tentam deter a marcha do progresso e fazer que a Humanidade retrograde são pobres seres, que Deus castigará! Serão levados de roldão pela torrente que procuram deter. (781)
NOTA DE ALLAN KARDEC: Sendo o progresso uma condição da natureza humana, não está no poder do homem opor-se-lhe. É uma força viva, cuja ação pode ser retardada, porém não anulada, por leis humanas más. Quando estas se tornam incompatíveis com ele, despedaça-as juntamente com os que se esforcem por mantê-las. Assim será, até que o homem tenha posto suas leis em concordância com a justiça divina, que quer que todos participem do bem e não a vigência de leis feitas pelo forte em detrimento do fraco.
Os homens que de boa-fé obstam ao progresso, acreditando favorecê-lo, porque, do ponto de vista em que se colocam, o vêem onde ele não existe, assemelham-se a pequeninas pedras que, colocadas debaixo da roda de uma grande viatura, não a impedem de avançar. (782)
Há o progresso regular e lento, que resulta da força das coisas. Quando, porém, um povo não progride tão depressa quanto deveria, Deus o sujeita, de tempos a tempos, a um abalo físico ou moral que o transforma. (783)
NOTA DE ALLAN KARDEC: O homem não pode conservar-se indefinidamente na ignorância, porque tem de atingir a finalidade que a Providência lhe assinou. Ele se instrui pela força das coisas. As revoluções morais, como as revoluções sociais, se infiltram nas idéias pouco a pouco; germinam durante séculos; depois, irrompem subitamente e produzem o desmoronamento do carunchoso edifício do passado, que deixou de estar em harmonia com as necessidades novas e com as novas aspirações.
Nessas comoções, o homem quase nunca percebe senão a desordem e a confusão momentâneas que o ferem nos seus interesses materiais. Aquele, porém, que eleva o pensamento acima da sua própria personalidade, admira os desígnios da Providência, que do mal faz sair o bem. São a procela, a tempestade que saneiam a atmosfera, depois de a terem agitado violentamente.
Se engana quem vê a perversidade do homem predominar neste mundo e diz que, pelo menos do ponto de vista moral, ele, em vez de avançar, caminha aos recuos, mas se observar bem o conjunto, verá que o homem se adianta, pois que melhor compreende o que é mal, e vai dia a dia reprimindo os abusos. Faz-se mister que o mal chegue ao excesso, para tornar compreensível a necessidade do bem e das reformas. (784)
O maior obstáculo ao progresso é o orgulho e o egoísmo. Fazendo referência ao progresso moral, porquanto o intelectual se efetua sempre. À primeira vista, parece mesmo que o progresso intelectual reduplica a atividade daqueles vícios, desenvolvendo a ambição e o gosto das riquezas, que, a seu turno, incitam o homem a empreender pesquisas que lhe esclarecem o Espírito. Assim é que tudo se prende, no mundo moral, como no mundo físico, e que do próprio mal pode nascer o bem. Curta, porém, é a duração desse estado de coisas, que mudará à proporção que o homem compreender melhor que, além da que o gozo dos bens terrenos proporciona, uma felicidade existe maior e infinitamente mais duradoura. (785) (Vide: Egoísmo, cap. XII.)
NOTA DE ALLAN KARDEC: Há duas espécies de progresso, que uma a outra se prestam mútuo apoio, mas que, no entanto, não marcham lado a lado: o progresso intelectual e o progresso moral. Entre os povos civilizados, o primeiro tem recebido, no correr deste século, todos os incentivos. Por isso mesmo atingiu um grau a que ainda não chegara antes da época atual. Muito falta para que o segundo se ache no mesmo nível. Entretanto, comparando-se os costumes sociais de hoje com os de alguns séculos atrás, só um cego negaria o progresso realizado. Ora, sendo assim, por que haveria essa marcha ascendente de parar, com relação, de preferência, ao moral, do que com relação ao intelectual? Por que será impossível que entre o dezenove e o vigésimo quarto século haja, a esse respeito, tanta diferença quanta entre o décimo quarto século e o século dezenove? Duvidar fora pretender que a Humanidade está no apogeu da perfeição, o que seria absurdo, ou que ela não é perfectível moralmente, o que a experiência desmente.
BIBLIOGRÁFIA:
Jesús, Mateus, XXV,14-30
O LIVRO DOS ESPÍRITOS, Livro III, cap. VIII – Obra codificada por Allan Kardec
e textos diversos do Espírito Emmanuel e outros livros do movimento espírita.

A Lei de Deus está escrita na Consciência


A Lei de Deus Está Escrita na Consciência - W.A. Cuin

“—Onde está escrita a lei de Deus?
----- Na consciência. ( Questão 621, de “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec)”.

Diante da quantidade de informações que temos na atualidade e da facilidade em se obter esclarecimentos, ninguém terá dificuldades em saber o que é correto e o que não é devido.
A humanidade atingiu um estágio de evolução que permite a cada criatura, fazendo a devida análise, saber como direcionar a sua vida pelos caminhos ideais na existência.
Existe sim e isso é de fácil verificação que um abismo se abre entre o que sabemos daquilo que realmente praticamos.
Temos absoluta certeza de que perdoar aqueles que nos ofendem é decisão acertada, que somente benefícios nos proporciona, no entanto, exercitar o perdão no quotidiano não é tarefa que realizamos sempre.
Ninguém ignora que a alimentação em excesso é tão prejudicial ao organismo quanto a falta dela, mas comer com disciplina e real aproveitamento não é tão simples como parece.
Sabemos, perfeitamente, que para galgarmos posições de destaque no meio social em que mourejamos, agindo com hombridade, não podemos dispensar o esforço, a perseverança e a determinação, mas fazer uso de tais virtudes não é comum no âmbito em que vivemos.
Conhecemos, com detalhes, a lei de causa e efeito, de ação e reação, onde cada um colhe o fruto da semente que plantou, que vida nos devolve o que a ela damos, no entanto, ainda continuamos fazendo o mau, sabendo que os reflexos dele respingarão em nos, trazendo consigo toda a gama de prejuízos e dores que são próprias.
É do entendimento geral que o bem praticado, seja onde e como for, será sempre o nosso advogado de defesa em todas as circunstâncias da vida, mas ainda relutamos em praticá-lo diariamente.
Em verdade, não desconhecemos a lei de Deus, pois que ela está escrita em nossa consciência, apenas ainda não estamos dispostos a vivenciá-las, e então, cultivando a indiferença, a omissão e o descaso seguimos o nosso roteiro de infelicidades e traumas.
É preciso que tomemos muito cuidado, pois que a desculpa de que não sabemos não valerá quanto estivermos frente-a-frente com os reflexos das ações infelizes que, por ventura, desencadeamos.
Fazendo o uso do bom senso e da racionalidade ninguém terá dúvidas de quais direções tomar.
E não precisaremos ser dotados de profunda intelectualidade para deliberarmos com acerto e equilíbrio, mas sim de refletirmos, maduramente, sobre o que é bom e o que não é, pois Paulo, num determinado momento sentenciou: “ tudo me é lícito, mas nem tudo me convém” ( I Coríntios 6:12).
Estamos errando muito por rebeldia e por indisciplina, preferindo jogar a culpa pelos nossos equívocos sobre os ombros alheios, pensando que assim agindo enganaremos a providência divina, que ludibriada pelas nossas ações disfarçadas nos socorrerá, evitando a safra de infortúnios e dissabores que plantamos.
Com coragem podemos identificar a nossa má vontade e trabalhar pela sua superação. O que não podemos mais é afirmar que não sabemos.... sabemos sim, pela nossa consciência ... talvez não estamos com vontade de fazer as coisas certas... mas sabemos..
Reflitamos...

Ninguém poderá ver o Reino de Deus se não nascer de novo


Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo


1. Jesus, tendo vindo às cercanias de Cezaréia de Filipe, interrogou assim seus discípulos: "Que dizem os homens, com relação ao Filho do Homem? Quem dizem que eu sou?" - Eles lhe responderam: "Dizem uns que és João Batista; outros, que Elias; outros, que Jeremias, ou algum dos profetas." - Perguntou-lhes Jesus: "E vós, quem dizeis que eu sou?" - Simão Pedro, tomando a palavra, respondeu: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo." - Replicou-lhe Jesus: "Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne nem o sangue que isso te revelaram, mas meu Pai, que está nos céus." (S. Mateus, cap. XVI, vv. 13 a 17; S. Marcos, cap. VIII, vv. 27 a 30.)

2. Nesse ínterim, Herodes, o Tetrarca, ouvira falar de tudo o que fazia Jesus e seu espírito se achava em suspenso - porque uns diziam que João Batista ressuscitara dentre os mortos; outros que aparecera Elias; e outros que uns dos antigos profetas ressuscitara. - Disse então Herodes: "Mandei cortar a cabeça a João Batista; quem é então esse de quem ouço dizer tão grandes coisas?" E ardia por vê-lo. (S. Marcos, cap. VI, vv. 14 a 16; S. Lucas, cap. IX, vv. 7 a 9.)

3. (Após a transfiguração.) Seus discípulos então o interrogam desta forma: "Por que dizem os escribas ser preciso que antes volte Elias?" - Jesus lhes respondeu: "É verdade que Elias há de vir e restabelecer todas as coisas: - mas, eu vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram e o trataram como lhes aprouve. É assim que farão sofrer o Filho do Homem." - Então, seus discípulos compreenderam que fora de João Batista que ele falara. (S. Mateus, cap. XVII, vv. 10 a 13; - S. Marcos, cap. IX, vv. 11 a 13.)

Ressurreição e reencarnação

4. A reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, sob o nome de ressurreição. Só os saduceus, cuja crença era a de que tudo acaba com a morte, não acreditavam nisso. As idéias dos judeus sobre esse ponto, como sobre muitos outros, não eram claramente definidas, porque apenas tinham vagas e incompletas noções acerca da alma e da sua ligação com o corpo. Criam eles que um homem que vivera podia reviver, sem saberem precisamente de que maneira o fato poderia dar-se. Designavam pelo termo ressurreição o que o Espiritismo, mais judiciosamente, chama reencarnação. Com efeito, a ressurreição dá idéia de voltar à vida o corpo que já está morto, o que a Ciência demonstra ser materialmente impossível, sobretudo quando os elementos desse corpo já se acham desde muito tempo dispersos e absorvidos. A reencarnação é a volta da alma ou Espírito à vida corpórea, mas em outro corpo especialmente formado para ele e que nada tem de comum com o antigo. A palavra ressurreição podia assim aplicar-se a Lázaro, mas não a Elias, nem aos outros profetas. Se, portanto, segundo a crença deles, João Batista era Elias, o corpo de João não podia ser o de Elias, pois que João fora visto criança e seus pais eram conhecidos. João, pois, podia ser Elias reencarnado, porém, não ressuscitado.

5. Ora, entre os fariseus, havia um homem chamado Nicodememos, senador dos judeus - que veio à noite ter com Jesus e lhe disse: "Mestre, sabemos que vieste da parte de Deus para nos instruir como um doutor, porquanto ninguém poderia fazer os milagres que fazes, se Deus não estivesse com ele."

Jesus lhe respondeu: "Em verdade, em verdade, digo-te: Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo."

Disse-lhe Nicodemos: "Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez?"

Retorquiu-lhe Jesus: "Em verdade, em verdade, digo-te: Se um homem não renasce da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. - O que é nascido da carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. - Não te admires de que eu te haja dito ser preciso que nasças de novo. - O Espírito sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem ele, nem para onde vai; o mesmo se dá com todo homem que é nascido do Espírito."

Respondeu-lhe Nicodemos: "Como pode isso fazer-se?" - Jesus lhe observou: "Pois quê! és mestre em Israel e ignoras estas coisas? Digo-te em verdade, em verdade, que não dizemos senão o que sabemos e que não damos testemunho, senão do que temos visto. Entretanto, não aceitas o nosso testemunho. - Mas, se não me credes, quando vos falo das coisas da Terra, como me crereis, quando vos fale das coisas do céu?" (S. JOÃO, cap. III, vv. 1 a 12.)

6. A idéia de que João Batista era Elias e de que os profetas podiam reviver na Terra se nos depara em muitas passagens dos Evangelhos, notadamente nas acima reproduzidas (nº 1, nº 2, nº 3). Se fosse errônea essa crença, Jesus não houvera deixado de a combater, como combateu tantas outras. Longe disso, ele a sanciona com toda a sua autoridade e a põe por princípio e como condição necessária, quando diz: "Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo." E insiste, acrescentando: Não te admires de que eu te haja dito ser preciso nasças de novo.

7. Estas palavras: Se um homem não renasce do água e do Espírito foram interpretadas no sentido da regeneração pela água do batismo. O texto primitivo, porém, rezava simplesmente: não renasce da água e do Espírito, ao passo que nalgumas traduções as palavras - do Espírito - foram substituídas pelas seguintes: do Santo Espírito, o que já não corresponde ao mesmo pensamento. Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários a que os Evangelhos deram lugar, como se comprovará um dia, sem equívoco possível. (1)

(1) A tradução de Osterwald está conforme o texto primitivo. Diz: "Não renasce da água e do Espírito"; a de Sacy diz: do Santo Espírito; a de Lamennais: do Espírito Santo.

À nota de Allan Kardec, podemos hoje acrescentar que as modernas traduções já restituíram o texto primitivo, pois que só imprimem "Espírito" e não Espírito Santo. Examinamos a tradução brasileira, a inglesa, a em esperanto, a de Ferreira de Almeida, e todas elas está somente "Espírito".

Além dessas modernas, encontramos a confirmação numa latina de Theodoro de Beza, de 1642, que diz:

"...genitus ex aqua et Spiritu..." "...et quod genitum est ex Spiritu, spiritus est."

É fora de dúvida que a palavra "Santo" foi interpolada, como diz Kardec. - A Editora da FEB, 1947.

8. Para se apanhar o verdadeiro sentido dessas palavras, cumpre também se atente na significação do termo água que ali não fora empregado na acepção que lhe é própria.

Muito imperfeitos eram os conhecimentos dos antigos sobre as ciências físicas. Eles acreditavam que a Terra saíra das águas e, por isso, consideravam a água como elemento gerador absoluto. Assim é que na Gênese se lê: "O Espírito de Deus era levado sobre as águas; flutuava sobre as águas; - Que o firmamento seja feito no meio das águas; - Que as águas que estão debaixo do céu se reúnam em um só lugar e que apareça o elemento árido; -Que as águas produzam animais vivos que nadem na água e pássaros que voem sobre a terra e sob o firmamento."

Segundo essa crença, a água se tornara o símbolo da natureza material, como o Espírito era o da natureza inteligente. Estas palavras: "Se o homem não renasce da água e do Espírito, ou em água e em Espírito", significam pois: "Se o homem não renasce com seu corpo e sua alma." E nesse sentido que a principio as compreenderam.

Tal interpretação se justifica, aliás, por estas outras palavras: O que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. Jesus estabelece aí uma distinção positiva entre o Espírito e o corpo. O que é nascido da carne é carne indica claramente que o corpo procede do corpo e que o Espírito independe deste.

9. O Espírito sopra onde quer; ouves-lhe a voz, mas não sabes nem donde ele vem, nem para onde vai: pode-se entender que se trata do Espírito de Deus, que dá vida a quem ele quer, ou da alma do homem. Nesta última acepção - "não sabes donde ele vem, nem para onde vai - significa que ninguém sabe o que foi, nem o que será o Espírito. Se o Espírito, ou alma, fosse criado ao mesmo tempo que o corpo, saber-se-ia donde ele veio, pois que se lhe conheceria o começo. Como quer que seja, essa passagem consagra o princípio da preexistência da alma e, por conseguinte, o da pluralidade das existências.

10. Ora, desde o tempo de João Batista até o presente, o reino dos céus é tomado pela violência e são os violentos que o arrebatam; - pois que assim o profetizaram todos os profetas até João, e também a lei. - Se quiserdes compreender o que vos digo, ele mesmo é o EIias que há de vir. - Ouça-o aquele que tiver ouvidos de ouvir. (S. MATEUS, cap. XI, vv. 12 a 15.)

11. Se o princípio da reencarnação, conforme se acha expresso em S. João, podia, a rigor, ser interpretado em sentido puramente místico, o mesmo já não acontece com esta passagem de S. Mateus, que não permite equívoco: ELE MESMO é o Elias que há de vir. Não há aí figura, nem alegoria: é uma afirmação positiva. -"Desde o tempo de João Batista até o presente o reino dos céus é tomado pela violência." Que significam essas palavras, uma vez que João Batista ainda vivia naquele momento? Jesus as explica, dizendo: "Se quiserdes compreender o que digo, ele mesmo é o Elias que há de vir." Ora, sendo João o próprio Elias, Jesus alude à época em que João vivia com o nome de Elias. "Até ao presente o reino dos céus é tomado pela violência": outra alusão à violência da lei moisaica, que ordenava o extermínio dos infiéis, para que os demais ganhassem a Terra Prometida, Paraíso dos hebreus, ao passo que, segundo a nova lei, o céu se ganha pela caridade e pela brandura.

E acrescentou: Ouça aquele que tiver ouvidos de ouvir. Essas palavras, que Jesus tanto repetiu, claramente dizem que nem todos estavam em condições de compreender certas verdades.

12. Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo; aqueles que estavam mortos em meio a mim ressuscitarão. Despertai do vosso sono e entoai louvores a Deus, vós que habitais no pó; porque o orvalho que cai sobre vós é um orvalho de luz e porque arruinareis a Terra e o reino dos gigantes. (ISAÍAS, cap. XXVI, v. 19.)

13. E também muito explícita esta passagem de lsaías: "Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo." Se o profeta houvera querido falar da vida espiritual, se houvera pretendido dizer que aqueles que tinham sido executados não estavam mortos em Espírito, teria dito: ainda vivem, e não: viverão de novo. No sentido espiritual, essas palavras seriam um contra-senso, pois que implicariam uma interrupção na vida da alma. No sentido de regeneração moral, seriam a negação das penas eternas, pois que estabelecem, em princípio, que todos os que estão mortos reviverão.

14. Mas, quando o homem há morrido uma vez, quando seu corpo, separado de seu espírito, foi consumido, que é feito dele? -Tendo morrido uma vez, poderia o homem reviver de novo? Nesta guerra em que me acho todos os dias da minha vida, espero que chegue a minha mutação. (JOB, cap. XIV, v. 10,14. Tradução de Le Maistre de Sacy.)

Quando o homem morre, perde toda a sua força. expira. Depois, onde está ele? -Se o homem morre, viverá de novo? Esperarei todos os dias de meu combate, até que venha alguma mutação? (ID. Tradução protestante de Osterwald.)

Quando o homem está morto, vive sempre; acabando os dias da minha existência terrestre, esperarei, porquanto a ela voltarei de novo. (ID. Versão da Igreja grega.)

15. Nessas três versões, o princípio da pluralidade das existências se acha claramente expresso. Ninguém poderá supor que Job haja querido falar da regeneração pela água do batismo, que ele de certo não conhecia. "Tendo o homem morrido uma vez, poderia reviver de novo?" A idéia de morrer uma vez, e de reviver implica a de morrer e reviver muitas vezes. A versão da Igreja grega ainda é mais explícita, se é que isso é possível: "Acabando os dias da minha existência terrena, esperarei, porquanto a ela voltarei", ou, voltarei à existência terrestre. Isso é tão claro, como se alguém dissesse: "Saio de minha casa, mas a ela tornarei.".

"Nesta guerra em que me encontro todos os dias de minha vida, espero que se dê a minha mutação." Job, evidentemente, pretendeu referir-se à luta que sustentava contra as misérias da vida. Espera a sua mutação, isto é, resigna-se. Na versão grega, esperarei parece aplicar-se, preferentemente, a uma nova existência: "Quando a minha existência estiver acabada, esperarei, porquanto a ela voltarei." Job como que se coloca, após a morte, no intervalo que separa uma existência de outra e diz que lá aguardará o momento de voltar.

16. Não há, pois, duvidar de que, sob o nome de ressurreição, o princípio da reencarnação era ponto de uma das crenças fundamentais dos judeus, ponto que Jesus e os profetas confirmaram de modo formal; donde se segue que negar a reencarnação é negar as palavras do Cristo. Um dia, porém, suas palavras, quando forem meditadas sem idéias preconcebidas, reconhecer-se-ão autorizadas quanto a esse ponto, bem como em relação a muitos outros.

17. A essa autoridade, do ponto de vista religioso, se adita, do ponto de vista filosófico, a das provas que resultam da observação dos fatos. Quando se trata de remontar dos efeitos às causas, a reencarnação surge como de necessidade absoluta, como condição inerente à Humanidade; numa palavra: como lei da Natureza. Pelos seus resultados, ela se evidencia, de modo, por assim dizer, material, da mesma forma que o motor oculto se revela pelo movimento. Só ela pode dizer ao homem donde ele vem, para onde vai, por que está na Terra, e justificar todas as anomalias e todas as aparentes injustiças que a vida apresenta. (1)

(1) Veja-se, para os desenvolvimentos do dogma da reencarnação, O Livro dos Espíritos, caps. IV e V; O que é o Espiritismo, cap. II, por Allan Kardec; Pluralidade das Existências, por PEZZANI.

Sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências, são ininteligíveis, em sua maioria, as máximas do Evangelho, razão por que hão dado lugar a tão contraditórias interpretações. Está nesse princípio a chave que lhes restituirá o sentido verdadeiro.

A reencarnação fortalece os laços de família, ao passo que a unicidade da existência os rompe

18. Os laços de família não sofrem destruição alguma com a reencarnação, como o pensam certas pessoas. Ao contrário, tornam-se mais fortalecidos e apertados. O princípio oposto, sim, os destrói.

No espaço, os Espíritos formam grupos ou famílias entrelaçados pela afeição, pela simpatia e pela semelhança das inclinações. Ditosos por se encontrarem juntos, esses Espíritos se buscam uns aos outros. A encarnação apenas momentaneamente os separa, porquanto, ao regressarem à erraticidade, novamente se reúnem como amigos que voltam de uma viagem. Muitas vezes, até, uns seguem a outros na encarnação, vindo aqui reunir-se numa mesma família, ou num mesmo círculo, a fim de trabalharem juntos pelo seu mútuo adiantamento. Se uns encarnam e outros não, nem por isso deixam de estar unidos pelo pensamento. Os que se conservam livres velam pelos que se acham em cativeiro. Os mais adiantados se esforçam por fazer que os retardatários progridam. Após cada existência, todos têm avançado um passo na senda do aperfeiçoamento. Cada vez menos presos à matéria, mais viva se lhes torna a afeição recíproca, pela razão mesma de que, mais depurada, não tem a perturbá-la o egoísmo, nem as sombras das paixões. Podem, portanto, percorrer, assim, ilimitado número de existências corpóreas, sem que nenhum golpe receba a mútua estima que os liga.

Está bem visto que aqui se trata de afeição real, de alma a alma, única que sobrevive à destruição do corpo, porquanto os seres que neste mundo se unem apenas pelos sentidos nenhum motivo têm para se procurarem no mundo dos Espíritos. Duráveis somente o são as afeições espirituais; as de natureza carnal se extinguem com a causa que lhes deu origem. Ora, semelhante causa não subsiste no mundo dos Espíritos, enquanto a alma existe sempre. No que concerne às pessoas que se unem exclusivamente por motivo de interesse, essas nada realmente são umas para as outras: a morte as separa na Terra e no céu.

19. A união e a afeição que existem entre pessoas parentes são um índice da simpatia anterior que as aproximou, Daí vem que, falando-se de alguém cujo caráter, gostos e pendores nenhuma semelhança apresentam com os dos seus parentes mais próximos, se costuma dizer que ela não é da família. Dizendo-se isso, enuncia-se uma verdade mais profunda do que se supõe. Deus permite que, nas famílias, ocorram essas encarnações de Espíritos antipáticos ou estranhos, com o duplo objetivo de servir de prova para uns e, para outros, de meio de progresso. Assim, os maus se melhoram pouco a pouco, ao contacto dos bons e por efeito dos cuidados que se lhes dispensam. O caráter deles se abranda, seus costumes se apuram, as antipatizas se esvaem. E desse modo que se opera a fusão das diferentes categorias de Espíritos, como se dá na Terra com as raças e os povos.

20. O temor de que a parentela aumente indefinidamente, em conseqüência da reencarnação, é de fundo egoístico: prova, naquele que o sente, falta de amor bastante amplo para abranger grande número de pessoas. Um pai, que tem muitos filhos, ama-os menos do que amaria a um deles, se fosse único? Mas, tranqüilizem-se os egoístas: não há fundamento para semelhante temor. Do fato de um homem ter tido dez encarnações, não se segue que vá encontrar, no mundo dos Espíritos, dez pais, dez mães, dez mulheres e um número proporcional de filhos e de parentes novos. Lá encontrará sempre os que foram objeto da sua afeição, os quais se lhe terão ligado na Terra, a títulos diversos, e, talvez, sob o mesmo título.

21. Vejamos agora as conseqüências da doutrina antireencarcionista. Ela, necessariamente, anula a preexistência da alma. Sendo estas criadas ao mesmo tempo que os corpos, nenhum laço anterior há entre elas, que, nesse caso, serão completamente estranhas umas às outras. O pai é estranho a seu filho. A filiação das famílias fica assim reduzida à só filiação corporal, sem qualquer laço espiritual. Não há então motivo algum para quem quer que seja glorificar-se de haver tido por antepassados tais ou tais personagens ilustres. Com a reencarnação, ascendentes e descendentes podem já se terem conhecido, vivido juntos, amado, e podem reunir-se mais tarde, a fim de apertarem entre si os laços de simpatia.

22. Isso quanto ao passado. Quanto ao futuro, segundo um dos dogmas fundamentais que decorrem da não-reencarnação, a sorte das almas se acha irrevogavelmente determinada, após uma só existência. A fixação definitiva da sorte implica a cessação de todo progresso, pois desde que haja qualquer progresso já não há sorte definitiva. Conforme tenham vivido bem ou mal, elas vão imediatamente para a mansão dos bem-aventurados, ou para o inferno eterno. Ficam assim, imediatamente e para sempre, separadas e sem esperança de tornarem a juntar-se, de forma que pais, mães e filhos, mandos e mulheres, irmãos, irmãs e amigos jamais podem estar certos de se verem novamente; é a ruptura absoluta dos laços de família.

Com a reencarnação e progresso a que dá lugar, todos os que se amaram tornam a encontrar-se na Terra e no espaço e juntos gravitam para Deus. Se alguns fraquejam no caminho, esses retardam o seu adiantamento e a sua felicidade, mas não há para eles perda de toda esperança. Ajudados, encorajados e amparados pelos que os amam, um dia sairão do lodaçal em que se enterraram. Com a reencarnação, finalmente, há perpétua solidariedade entre os encarnados e os desencarnados, e, daí, estreitamento dos laços de afeição.

23. Em resumo, quatro alternativas se apresentam ao homem, para o seu futuro de além-túmulo: 1ª, o nada, de acordo com a doutrina materialista; 2ª, a absorção no todo universal, de acordo com a doutrina panteísta; 3ª, a individualidade, com fixação definitiva da sorte, segundo a doutrina da Igreja; 4ª, a individualidade, com progressão indefinita, conforme a Doutrina Espírita. Segundo as duas primeiras, os laços de família se rompem por ocasião da morte e nenhuma esperança resta às almas de se encontrarem futuramente. Com a terceira, há para elas a possibilidade de se tornarem a ver, desde que sigam para a mesma região, que tanto pode ser o inferno como o paraíso. Com a pluralidade das existências, inseparável da progressão gradativa, há a certeza na continuidade das relações entre os que se amaram, e é isso o que constitui a verdadeira família.