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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Áudiobook - Livro Sexo e Destino


LIVRO SEXO E DESTINO - ANDRÉ LUIZ/CHICO XAVIER
                                        
                   ORGANOGRAMA DOS PERSONAGENS PRINCIPAIS DO LIVRO SEXO E DESTINO
Esse livro fala sobre Instituições Espirituais, Famílias, Espíritos (encarnados, desencarnados, e vertentes de alguns em vidas passadas).
Esse organograma, precisou ser elaborado, pois a teia de envolvimentos entre os personagens principais é de tal intensidade que só mesmo com esse anexo nas mãos é que oentendimento do livro ficou algo facilitado.

SOCIEDADE ESPÍRITA ALLAN KARDEC
RIBEIRÃO PRETO/SP
Eurípedes Kühl – Responsável
Rua Monte Alverne, 667 – Ribeirão Preto/SP
 
Capítulo 01
 
Capítulo 02
 
Capítulo 03

 
Capítulo 04

 
Capítulo 05
 
Capítulo 06

 
Capítulo 07

 
Capítulo 08

 
Capítulo 09

 
Capítulo 10
 
Capítulo 11

 
Capítulo 12

 
Capítulo 13
 
Capítulo 14

 
Capítulo 15
 
Capítulo 16

 
Capítulo 17

 
Capítulo 18

 
Capítulo 19

 
Capítulo 20

 
Capítulo 21

 
Capítulo 22

 
Capítulo 23

 
Capítulo 24

 
Capítulo 25

 
Capítulo 26

 
Capítulo 27

 
Capítulo 28

 
Capítulo 29

 
Capítulo 30

 
Capítulo 31

 
Capítulo 32

 
Capítulo 33


































segunda-feira, 5 de dezembro de 2011


MATERIALIZAÇÃO     

 Médium Elizabeth d'Esperance com vaso de lírios
materializado no início do século vinte.   
                                                                                                                                     

Materialização é o ato ou o efeito de materializar(-se). O conhecido professor Hernani Guimarães Andrade, em seu livro "A Matéria Psi", faz judiciosas ponderações a respeito deste verbete: "O vocábulo materialização pode sugerir a idéia de transformação da substância espiritual em substância material". Isso não parece certo. Na ectoplasmia não ocorre, nem materialização nem desmaterialização. O fenômeno em jogo tem as características da organização morfológica (modelação) de uma determinada substância material (o ectoplasma). No vocabulário espírita trata-se de um fenômeno de ectoplasmia (teleplastia), quando um ser ou objeto de outra dimensão (espiritual) tornar-se visível e tangível, por condensação de substância sutil (ectoplasma) que se desprende do médium. A formação ectoplasmática dos Espíritos pode ser parcial (dedos, mãos, braços, rostos) ou total (corpo inteiro), com substância luminosa ou não. Sob o aspecto da tangibilidade, as formações ectoplasmáticas podem ser do tipo rarefeito, de pouca densidade, mais denso e opaco com bastante nitidez e denso com solidez e tangibilidade total. (Dicionário de Filosofia Espírita - L. Palhano Jr)



O ESPÍRITO MATERIALIZADO E O PARALÍTICO   
 Alexandre Aksakoff - cientista russo



     Na data aprazada, às nove horas da noite, iniciou-se a sessão, onde um médium, ainda pouco experiente na sua carreira psíquica, seria observado em suas possibilidades transcendentes pela vigilante argúcia do ilustre experimentador. Produzida a penumbra, sempre necessária à boa formação dos desconcertantes, belos e impressionantes fenômenos de materializações de almas habitantes do Além, o médium entra em transe, começando a resfolegar penosamente, com mostras de fadiga singular, como no estado de ânsia pré-agônica. Muito atento, portando-se absolutamente respeitoso, o paralítico, que nada poderia prever do que se iria passar, limitava-se à observação, certo de que se encontrava diante de uma das forças ocultas da Natureza, e portanto à frente de uma manifestação da majestade do Absoluto. Notava ele que o Sr. Aksakofffazia-se exigente, talvez excessivamente meticuloso, cercando o médium de uma vigilância cerrada, depois de havê-lo feito trocar de roupa, para envergar um sudário fornecido pelos experimentadores; que os pés e as mãos do mesmo médium permaneciam amarrados, e que seu próprio corpo, atado à cadeira em que se sentava, era visto pelos circunstantes preso em uma gaiola proporcional, através da abertura de um reposteiro de cor escura, que o isolava da assistência, mas de forma a permitir a todas as pessoas presentes igualmente observarem quaisquer movimentos que porventura o mesmo fizesse. Quanto aos assistentes, procuravam manter conversação alheia às circunstâncias do momento, porque assim o exigira o diretor dos trabalhos, evitando se concentrassem no fato, a fim de que fenômenos originários das mentes pessoais presentes não invalidassem ou alterassem as experiências que se deveriam tentar. Não obstante, as atitudes eram graves, a conversação discreta e em tom vocal comedido, visto que à reunião assistiam somente pessoas assaz educadas.
     Melânia não participava da reunião. Permanecia em casa, fazendo companhia ao pequeno Peters. Nikolai e Simone, o mordomo, que haviam transportado Dimitri, esperavam no vestíbulo, apenas tendo subido para acomodarem o amo na poltrona indicada por um assistente do Sr. Aksakoff.
     Em dado momento, uma figura expressiva desenhou-se no gabinete onde permanecia o médium, que era visto pelos circunstantes amarrado à sua cadeira. Na sala, onde se encontravam Dimitri e os demais assistentes, uma pequena lâmpada a querosene permitia claridade suficiente para que os detalhes ali existentes fossem reconhecidos. A princípio indecisa e vaga, amorfa, parecendo apenas um aglomerado de matérias sutis fosforescentes, que se condensavam quais as nebulosas no trabalho da criação das galáxias, a figura foi-se delineando rapidamente para, logo após, deixar-se ver como a personalidade de uma dama da alta sociedade, tal o garbo com que se apresentava, a atitude a um tempo graciosa e distintíssima com que se particularizava a própria silhueta. No pensamento de Dolgorukov, então, meditações vertiginosas começaram a se suceder. Ele pensava nas descrições daquelas aparições indicadas nos Evangelhos, as quais, quando menino, era obrigado a ler e aprender para os exames de religião: o anjo Gabriel aparecendo a Zacarias em orações diante do altar, no tempo de Jerusalém, à hora dos ofertórios, para anunciar o nascimento de João, Precursor do Cristo. O mesmo anjo deixando-se ver por Maria, em Nazaré, ao cair do crepúsculo, participando-lhe que seria mãe do Messias esperado. No Jardim das Oliveiras, ainda o mesmo mensageiro, que - percebia-se - era sempre investido de tarefas delicadas pelos desígnios do Céu, reconfortando o Nazareno e encorajando-o para as dramáticas peripécias da paixão e da morte. E depois, o próprio Nazareno mostrando-se, após a consumação do Calvário, aos discípulos reunidos, quando as portas e as janelas da casa onde se ocultavam, todas fechadas, não se haviam aberto para lhe permitirem passagem, exatamente como sucedia ali, naquele momento, quando as fechaduras das portas e os ferrolhos das janelas haviam sido até lacradas e as chaves permaneciam nos bolsos dos meticulosos experimentadores, sem, de forma alguma, permitirem ingresso a intrusos.

     No entanto, a figura, ou o Espírito de uma dama, assim concretizado, soerguera a cauda do vestido, num gesto gentil e muito feminino, levantando-a do solo para melhor trocar os passos; ajeitara, com a outra mão, a longa “écharpe” de seda que lhe caía dos ombros, e, volteando em torno do médium, abatido por um transe intenso, parou no meio da porta formada pela abertura da cortina, fitando a assistência com interesse e majestade.



     Surpreso, como que acometido de um assombro que tanto participaria da emoção profunda, da alegria inexplicável, como também do terror, Dimitri reconheceu, nos gestos dessa dama de além-túmulo, ao apanhar a cauda do vestido e ao ajeitar a “écharpe” nos ombros, os próprios gestos de sua mãe, quando se preparava para descer as escadarias da casa, e esse assombro e essa estupefação atingiram o seu mais intenso grau quando, instantes depois, mais aperfeiçoada a materialização, reconheceu também os traços daquela morta muito amada, cuja ausência acentuara de maiores amarguras a sua existência, já de si tão desolada pela enfermidade.
     Sim! Era sua mãe, rediviva por um arrebatador milagre da Ciência! Eram os seus mesmos cabelos grisalhos, artisticamente penteados para o alto! Eram a sua pulseira preferida e o broche de ouro e rubis, dos quais nunca se apartava...
    Desfeito em lágrimas, o paralítico não sabia o que dizer e, presa de uma emoção que tocava o terror, somente podia balbuciar, comovendo os assistentes e encantando o sábio Sr. Aksakof, para quem a materialização assim identificada valia por glorioso troféu:
     - Mas... É a minha mãe! Oh, Sr. Aksakoff, é a minha mãe!
     Fosforescente e imprimindo detalhes na sua configuração materializada, para melhor identificar-se ao filho, a entidade deu alguns passos, deslizando pela sala. Deteve-se alguns segundos à frente de Dimitri, perpassando as mãos por seu rosto banhado de lágrimas. Voltou, em seguida, ao gabinete penumbroso, onde se encontra o médium, e lançou-lhe esta advertência através do mesmo instrumento, que continuava caído em “transe”, advertência em tudo digna de uma Revelação que tende a operar revoluções no caráter humano e na própria sociedade terrena:

     - Por que choras, querido Mítia, meu filho?... quando contemplo em derredor de ti motivos de júbilo, com o ensejo propício que te é concedido para o engrandecimento do teu caráter e a elevação da tua alma para o amor de Deus? Venho a ti através de um passo muito natural da vida do Espírito, para dizer-te que, a partir deste momento, será preferível que te habitues a ver na enfermidade que execras a amiga protetora que te permite ocasião para reeducar a alma ainda inferior e tão necessitada de se adornar de virtudes, porque justamente é descendência da Luz. Se, em vez de inválido numa cadeira de rodas, continuasses a te absorver nas alegrias do mundo ou declinar para os canais do erro, entregando-te a toda sorte de vícios e paixões, que seria da tua alma imortal? Entre as alegrias e os gozos mundanos, tu, homem de sociedade brilhante, quando procurarias pensar no infortúnio alheio, na situação difícil de milhares de enfermos em condições  infinitamente mais angustiosas do que a tua? E, portanto, quando te decidirias à observação das leis irremissíveis do amor a Deus e ao próximo, única a proteger, em verdade, o destino das criaturas, antes e depois da morte? Se entre risos, flores e satisfações pessoais fechasses os olhos carnais para despertar na vida imortal do Espírito, sem jamais teres procurado aproximar-te das Verdades Eternas por qualquer meio; desprovida a tua individualidade das qualidades recomendáveis para o bem-estar no além-túmulo, qual seria aqui a tua posição, ao abandonares a vida terrena? Nem é bom pensar... A realidade grave da situação se abateria sobre ti, para te envergonhar e humilhar em face da consciência, como diante dos teus irmãos do Invisível. Chorarias sobre o tempo perdido, sobre a conseqüência do bem que deixaste de realizar a benefício de ti mesmo. E te convencerias de que, nos braços das alegrias mundanas, jamais o homem atenderá à necessidade de procurar Deus em si mesmo, iluminando-se no cumprimento dos próprios deveres. E, assim, surpreendido na vida do Espírito, a consciência atormentada, o coração repeso e amargurado, só te restaria retornar à Terra em novo corpo, a fim de melhor te conduzires, a fim de te elevares à altura da honra da alma imortal, originária do Criador... pois, fica sabendo, ainda, que todos os filhos de Deus emigram para a Terra consecutivamente, em encarnações de aprendizados valiosos, e da mesma forma imigram para o Além, pátria natural de todas as almas. Fica certo, meu filho, de que me servi do pequeno Peters para lançar, no teu coração, a primeira advertência sobre a impiedade em que vivias, absorvido na revolta do próprio egoísmo, que te levava a supor seres o maior dos desgraçados, quando bem suavizada é a provação da enfermidade que te acometeu! Guiei-te, eu mesma, à peregrinação pela casa dos demais enfermos que visitaste, desejosa de que soubesses que - enquanto rodeado de fausto e atenções, vivias blasfemando contra Deus -, dentro das tuas terras, ignorados pelo teu orgulho e pela tua indiferença, existiam aqueles que viviam no isolamento da miséria, mas também, viviam com o coração humildemente voltado para Deus, considerando-se venturosos ao reconhecerem a misericórdia do Altíssimo na própria esmola que os corações piedosos lhes concediam.
     Medita sobre quanto há sucedido ao redor de ti nestes últimos dias, Dimitri... e observa que o Altíssimo se manifesta clemente para contigo em tudo o que te cerca... até mesmo nesta possibilidade que tiveste de me ver e ouvir. Eu curva-te, submisso, a essa paralisia que te permite ascensão para Deus, através da expiação de delinqüências em vidas pretéritas. E aprende a ser conformado e paciente, porque, mesmo retido numa cadeira de rodas, como no fundo de um leito de dores, o homem poderá realizar obras que testemunhem boa vontade em ser útil aos semelhantes, adornando a própria alma com virtudes que não poderia adquirir por outra forma.
     Entretanto, Dimitri continuava banhado em lágrimas, reconhecendo, só agora, o erro em que vivera submerso desde que adoecera, e, sinceramente arrependido, dizia consigo mesmo, sem coragem de se expressar em voz alta, respondendo àquela que transpunha as barreiras do Além para adverti-lo e aconselhá-lo, como mãe prudente que fora:
     - Perdoa, querida mãe, e por Deus te peço que me ajudes na reforma que se impõe no meu caráter! Sim! Somente agora, meditando sobre os enfermos que visitei, me caiu dos olhos a venda do orgulho que me cegava. Perdoa-me e ampara-me.
     Compreendendo-o, a formosa aparição voltou até ele, pousou levemente a mão sobre sua cabeça, e arrematou:
     Tua consciência ditará o que houver a fazer. Encontras-te na pista redentora da Verdade. Habilita-te, pois, para o critério do seu culto, através do estudo, da meditação e da pesquisa, pois outro não será o dever da alma imortal, cujo destino é a plenitude da comunhão com a Verdade Absoluta... (Espírito de Leão Tolstoi - Obra: Ressurreição e Vida - Médium: Yvonne A Pereira). 
Nota do compilador: Aksakoff  foi um cientista russo que no final do século dezenove pesquisou e comprovou as materializações de espíritos



                               KATIE KING E A LUZ
Perguntaram um dia a Katie King    (Espírito que se materializava através da médium Srta. Cook) por que não podia mostrar-se sob uma luz mais forte. (Ela só permitia aceso um bico de gás e esse mesmo com a chama muito baixa). A pergunta pareceu irritá-la, enormemente. Respondeu assim: “Já vos tenho declarado muitas vezes que não me é possível suportar a claridade de uma luz intensa. Não sei por que me é isso impossível; entretanto, se duvidais de minhas palavras, acendei todas as luzes e vereis o que acontecerá. Previno-vos, porém, de que se me submeterdes a essa prova, não mais poderei reaparecer diante de vós. Escolhei”.
     As pessoas presentes se consultaram entre si e decidiram tentar a experiência, a fim de verem o que sucederia. Queríamos tirar definitivamente a limpo a questão de saber se uma iluminação mais forte embaraçaria o fenômeno de materialização. Katie teve aviso da nossa decisão e consentiu na experiência. Soubemos mais tarde que lhe havíamos causado grande sofrimento.
     O Espírito Katie se colocou de pé junto à parede e abriu os braços em cruz, aguardando a sua dissolução. Acenderam-se os três bicos de gás. (A sala media cerca de dezesseis pés quadrados).
     Foi extraordinário o efeito produzido sobre Katie King, que apenas por um instante resistiu à claridade. Vimo-la em seguida fundir-se, como uma boneca de cera junto de ardentes chamas. Primeiro, apagaram-se-lhe os traços fisionômicos, que não mais se distinguiam. Os olhos enterraram-se nas órbitas, o nariz desapareceu, a testa como entrou pela cabeça. Depois, todos os membros cederam e o corpo inteiro se achatou, qual um edifício que desmorona. Nada mais restava do que a cabeça sobre o tapete e, por fim, um pouco de pano branco, que também desapareceu, como se o houvessem puxado subitamente. Conservamo-nos alguns momentos com os olhos fitos no lugar onde Katie deixara de ser vista. Terminou assim aquela memorável sessão.  (Gabriel Delanne - Obra: A Alma é Imortal).




BENEVOLÊNCIA PARA COM TODOS, INDULGÊNCIA PARA COM AS IMPERFEIÇÕES DOS OUTROS E PERDÃO DA

Uma lembrança de vidas passadas - Revista Espírita 1864


     Num artigo biográfico sobre Méry, publicado pelo Journal littéraire de 25 de setembro de 1864, encontra-se a seguinte passagem:
     “Há teorias singulares, que para ele são convicções.
     Assim, ele crê firmemente que viveu várias vezes; lembra-se das menores circunstâncias de suas existências precedentes e as detalha com uma nota de certeza, que impõe como uma autoridade.
     Assim, foi um dos amigos de Virgílio e de Horácio, conheceu Augustus Germanicus e fez a guerra nas Gálias e na Germânia. Era general e comandava as linhas romanas quando estas atravessaram o Reno. Conhecia nas montanhas lugares onde havia acampado, nos vales campos de batalha onde combateu. Lembra-se de palestras em casa de Mecenas, que são o eterno objeto de seus pesares. Chamava-se Mínius.
     Um dia, na vida atual, estava em Roma e visitava a biblioteca do Vaticano. Ali foi recebido por gente moça, noviços em longas vestes escuras, que se puseram a lhe falar no latim mais puro. Méry era bom latinista, no que se refere à teoria e às coisas escritas, mas ainda não havia experimentado conversar familiarmente na língua de Juvenal. Ouvindo esses Romanos de hoje, admirando esse magnífico idioma, tão harmonizado com aqueles monumentos, com os costumes da época em que era usado, pareceu-lhe que um véu caía de seus olhos; pareceu-lhe que ele próprio havia conversado, em outros tempos, com amigos que se serviam dessa linguagem divina. Frases feitas e impecáveis saíam-lhe da boca; achava imediatamente a elegância e a correção; enfim, falou latim como fala francês; teve em latim o espírito que tem em francês. Nada disso podia fazer-se sem um aprendizado e, se não tivesse sido um súdito de Augusto, se não tivesse atravessado aquele século de todos os esplendores, não teria improvisado uma ciência, impossível de adquirir em poucas horas.
     Outra passagem sua na Terra foi nas Índias, por isso as conhece tão bem. Por isso, quando publicou a Guerre du Nizan, nenhum de seus leitores terá duvidado que não tivesse morado muito tempo na Ásia. Suas descrições são vivas, seus quadros são originais, toca com o dedo os mínimos detalhes e é impossível não tenha visto o que conta, pois lá está o cunho da verdade.
     Pretende ter entrado naquele país com uma expedição muçulmana, em 1035. Lá viveu cinqüenta anos, passou belos dias e lá se fixou para não mais sair. Lá, ainda, era poeta, mas menos letrado do que em Roma e em Paris. Inicialmente guerreiro, depois sonhador, guardou na alma as imagens empolgantes das margens do Rio Sagrado e dos ritos indus. Tinha várias moradas, na cidade e no campo, orou nos templos dos elefantes, conheceu a civilização avançada de Java, viu de pé as esplêndidas ruínas que assinala e ainda tão pouco conhecidas.
     É preciso ouvi-lo contar esses poemas, pois são verdadeiros poemas essas lembranças à maneira de Swedenborg. É muito sério, não tenhais dúvida. Não é uma mistificação arranjada à custa dos ouvintes: é uma realidade de que ele consegue vos convencer.
     E suas doutrinas sobre a história, que possui admiravelmente! E suas pilhérias tão finas, que lançam uma luz nova sobre tudo quanto elas tocam! E os relatos, que são romances, que quase nos fazem chorar, depois de não termos podido conter o riso! Tudo isto faz de Méry um dos mais maravilhosos homens dos tempos em que viveu e, mesmo, daqueles em que sua alma errante esperava a vez para entrar num corpo e novamente fazer que dela falassem as gerações sucessivas. (Pierre Dangeau). 
     O autor do artigo não acompanha este fato de nenhuma reflexão. Depois de ter exaltado o alto mérito de Méry e sua grande inteligência, teria sido inconseqüente taxá-la de loucura. Se, pois, Méry é um homem de bom senso, de alto valor intelectual; se a crença de já ter vivido é nele uma convicção; se essa convicção nele não é produto de um sistema de sua maneira, mas o resultado de uma lembrança retrospectiva e de um fato material, não há aí de que despertar a atenção de todo homem sério? Vejamos a que incalculáveis conseqüências nos conduz este simples fato.
     Se Méry já viveu, não deve isto ser exceção, porque as leis da natureza são as mesmas para todos e, assim, todos os homens também devem ter vivido; se se viveu, não é certamente pelo corpo que se renasce: é, pois, o princípio inteligente, a alma, o Espírito. Então temos uma alma. Desde que Méry conservou a lembrança de várias existências, desde que os lugares lhe recordam o que viu outrora, com a morte do corpo a alma não se perde no todo universal: conserva, pois, a sua individualidade, o conhecimento do seu eu.
     Lembrando-se Méry do que foi há dois mil anos, em que se tornou sua alma no intervalo? Abismou-se no oceano do infinito ou perdida nas profundezas do espaço? Não; sem isto ela não reencontraria sua individualidade de outrora. Então deve ter ficado na esfera da atividade terrestre, vivendo a vida espiritual, em nosso meio ou no espaço que nos rodeia, até tomar um novo corpo. Não sendo Méry único no mundo, deve haver em torno de nós uma população inteligente invisível.
     Renascendo para a vida corpórea, após um intervalo mais ou menos longo, a alma renasce no estado primitivo, no estado de alma nova, ou aproveita as idéias adquiridas em suas existências anteriores? A lembrança retrospectiva resolve a questão por um fato: se Méry tivesse perdido as idéias adquiridas, não teria readquirido a língua que falava outrora; a visão dos lugares nada lhe teria recordado.
     Mas se já vivemos, por que não reviveríamos ainda? Porque esta existência seria a última? Se renascemos com o desenvolvimento intelectual realizado, a intuição que trazemos das idéias adquiridas é um fundo que ajuda a aquisição de novas idéias, que tornam o estudo mais fácil. Se um homem for apenas meio matemático numa existência, menos trabalho lhe será preciso em nova existência para ser um matemático completo. É uma conseqüência lógica. Se se tornou bom pela metade, se se corrigiu de alguns defeitos, necessitará de menos esforço para tornar-se melhor, e assim por diante.
     Nada do que adquirimos em inteligência, em saber e em moralidade fica perdido; quer morramos jovens ou velhos, quer tenhamos ou não tempo de o aproveitar na existência presente, colheremos os seus frutos em existências subseqüentes. As almas que animam os franceses policiados de hoje podem, então, ser as mesmas que animavam os bárbaros francos, ostrogodos, visigodos, os gauleses selvagens, os conquistadores romanos, os fanáticos da idade média, mas que, a cada existência, deram um passo à frente, apoiadas nos passos anteriores, e que progredirão ainda.
     Eis, pois, resolvido o grande problema do progresso da humanidade, esse problema contra o qual se chocaram tantos filósofos! está resolvido pelo simples fato da pluralidade das existências. Mas quantos outros problemas vão encontrar a sua solução na solução deste! Que horizontes novos isto não abre! É toda uma revolução nas crenças e nas idéias.
     Assim raciocinará o pensador sério, o homem refletido. Um fato é um ponto de partida, do qual tira conseqüências. Ora, quais são os pensamentos que o caso de Méry desperta no autor do artigo? Ele próprio os resume nestas palavras: “Há teorias singulares, que para ele são convicções.”
     Mas se esse autor nisto vê apenas uma coisa bizarra, pouco digna de sua atenção, o mesmo não se daria com todo o mundo. Este encontra em seu caminho um diamante bruto, que não se digna apanhar, por lhe desconhecer o valor; ao passo que aquele saberá apreciá-lo e tirar proveito.
     As idéias espíritas hoje se produzem sob todas as formas; estão na ordem do dia e a imprensa, sem querer confessá-las, as registra e as semeia em profusão, crendo que apenas enriquece suas colunas de facécias. Não é admirável que todos os adversários da idéia, sem exceção, trabalhem a porfia na sua propagação? Gostariam de calar o que a força das coisas os arrasta a falar. Assim o quer a Providência - para os que crêem na Providência.
     Dirão que raciocinamos sobr).  e um fato isolado, que não faz lei. Porque, se a pluralidade das existências fosse uma condição inerente à humanidade, porque nem todos os homens se recordam, como Méry? A isto respondemos: Dai-vos ao trabalho de estudar o Espiritismo e o sabereis. Não repetiremos, pois, o que cem vezes foi demonstrado relativamente a inutilidade da lembrança, para aproveitar a experiência adquirida em vidas precedentes e o perigo dessa lembrança para as relações sociais.
     Há, porém, uma outra causa para o esquecimento, de certo modo fisiológica, devida, ao mesmo tempo à materialidade do nosso invólucro e à identificação do nosso Espírito pouco adiantado com a matéria. À medida que o Espírito se depura, os laços materiais são menos tenazes, o véu que obscurece o passado é menos opaco; assim, a faculdade da lembrança retrospectiva segue o desenvolvimento do Espírito. O fato é raro em nossa Terra, porque a humanidade ainda é muito material; mas seria erro supor que Méry seja um exemplo único. Deus permite, de vez em quando, que ele se apresente, a fim de trazer os homens ao conhecimento da grande lei da pluralidade das existências, a única que explica a origem das qualidades boas ou más, mostra-lhe a justiça das misérias que suporta aqui e lhe traça a rota do futuro.
     A inutilidade da lembrança para aproveitar o passado é o que têm mais dificuldade de compreender os que não estudaram o Espiritismo; para os Espíritas é uma questão elementar. Sem repetir o que a respeito foi dito, a seguinte comparação poderá facilitar a sua compreensão.
     O estudante percorre a série de classes, desde a oitava até a filosofia. O que aprendeu na oitava lhe serve para aprender o que ensinam na sétima. Suponhamos agora que no fim da oitava tenha perdido a lembrança do tempo passado nesta classe; nem por isto seu espírito será menos desenvolvido e ornado de conhecimentos adquiridos; apenas não se lembrará nem onde nem como os adquiriu, mas, à vista do progresso realizado, estará apto a aproveitar as lições da sétima. Suponhamos, ainda, que na oitava tenha sido preguiçoso, colérico, indócil, mas que, tendo sido castigado e moralizado, o caráter se tenha modificado, tornando-se laborioso, manso e obediente; levará estas qualidades para a nova classe que lhe parecerá ser a primeira. De que lhe serviria saber que foi fustigado pela preguiça, se não mais é preguiçoso? O essencial é que chegue a sétima classe melhor e mais capaz do que era na oitava. Assim será de classe em classe.
     Então! o que não acontece ao escolar, nem ao homem nos diversos períodos de sua vida, existe para ele de uma a outra existência: eis toda a diferença, mas o resultado é exatamente o mesmo, posto que em maior escala. 
(Allan  Kardec. Revista Espírita 1864)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Não escolha a profissão do seu filho


Interessante e oportuna a matéria veiculada no Jornal da Cidade do dia 14 de setembro sobre os jovens e as dúvidas sobre a profissão a seguir.
A reportagem locomoveu-me aos tempos de adolescente quando afirmava a todos categoricamente o ideal de ser jogador de futebol. Ao ouvirem minha sentença, muita gente dizia: Ótimo, dá muito dinheiro!
Depois de avançar as fases da vida presenciei o crescimento de alguns primos. Minhas tias, mães desses garotos diziam: Estude, meu filho, para ser médico, pois dá um bom dinheiro!

Mais adiante me deparei com amigos que instruíam os filhos a serem engenheiros. Um deles chegou ao cúmulo de sugerir ao seu pupilo, que ansiava ganhar seu pão diário nas salas de aula, que não se aventurasse a ser professor. Professor? – questionava o colega para logo em seguida bater o seu martelo – Professor ganha pouco, meu filho, deixe essa bobagem de lado, você deve estudar para ser promotor.

Santo capitalismo misturado a intromissão na vida alheia!
Entre a vocação e o desejo do jovem em muitos casos há o dedo dos outros a xeretar em suas decisões. Você deve ser médico, engenheiro, arquiteto, jornalista...
Muitos pais infelizmente querem se realizar nas escolhas dos filhos, esquecendo-se de respeitar suas vocações, aptidões e necessidades.
Podem influenciar negativamente a escolha dos filhos com esse comportamento inadequado e deseducado.
E a cabeça do adolescente fervilha entre as opiniões dos pais e amigos e seu desejo, o que acarreta uma pressão ainda maior no momento crucial de escolher o futuro a trilhar.  Recordo-me ainda de garoto que queria ser bailarino. O pai, sujeito com dificuldades em aceitar a opção alheia, esbravejava: Balé é coisa de... Deixa pra lá, é bom não terminar aqui a frase do machista incorrigível.

Fico a pensar:
Onde, então, fica a vocação? Onde fica a nossa realização pessoal que se traduz no objetivo de seguir a profissão sonhada, que nos traz prazer e que nos realizará como seres humanos? Será que importa apenas o status e as moedas que determinada profissão proporcionará?
Portanto, a abordagem não se dirige aos jovens, mas, sim, aos seus pais no intuito de fazer com que reflitam em suas atitudes diante das escolhas de seus filhos. Nem sempre o que nos parece bom o será para o outro. Nesses casos vale sempre lembrar que nossos filhos têm vontade própria e merecem respeito e consideração. São almas portadoras de bagagens aquilatadas nas incontáveis viagens reencarnatórias que ainda desconhecemos.

Por isso é prudente não avançar o sinal arvorando-se a escolher no lugar do outro. Afinal, nossos filhos são em primeiro lugar filhos de Deus. Por mais que nos custe admitir que devemos respeitar as escolhas daqueles que até pouco tempo dependiam de nós, essa atitude é a mais conveniente.

Gosto muito de um livro do notável escritor Hermínio Miranda: “Nossos filhos são espíritos”. A obra citada nos ajuda a perceber que há coisas que não nos compete intromissão, apenas o respeito. A escolha da profissão de nossos filhos é uma dessas coisas.
Portanto, se queremos, de fato, contribuir para dirimir as dúvidas de nossos filhos no campo profissional a seguir, é importante apoiarmos e oferecermos as ferramentas necessárias para que façam a escolha correta, sejam felizes e possam beneficiar a sociedade com o exercício da vocação que trazem em seu íntimo.
Pouco importa se serão médicos ou borracheiros, pintores ou engenheiros. O mais significativo é que adquiram capacidade para o exercício da atividade a que se propuseram e, reforçando: sejam felizes!
Uma pátria próspera se faz com indivíduos que exercem suas atividades com amor e prazer. Portanto, respeitemos a escolha dos jovens colocando-nos no papel de coadjuvantes e não atores principais, afinal, a vida é deles e cabe a eles decidir os caminhos a percorrer. Pensemos nisso. 
 
Wellington Balbo 

O Centro Espírita no combate ao suicídio


O Centro Espírita deve ser um foco de luz na Terra, que clareia caminhos, apazigua corações, cura feridas da alma, instrui, conforta e faz a criatura sentir-se num ambiente familiar, como se estivesse em sua própria casa em conversa com amigos queridos, onde pode falar de seus dramas, medos e angústias, sem qualquer constrangimento.

Pode parecer estranho o início deste artigo, mas irei explicar melhor. É que na Terra deparamo-nos com dores das mais diversas, e muita gente arrefece o ânimo, literalmente cai e se entrega ao desalento. Quando isto ocorre, estão abertas as portas para que a ideia do suicídio comece a perseguir a pessoa.

Trabalhando neste tema com mais dois amigos – o suicídio –, tema, aliás, que foi abordado por Kardec diversas vezes, deparamo-nos com uma infinidade de casos que nos entristecem e mostram a urgência e necessidade que se tem de fazer ecoar a voz dos Espíritos por todos os cantos deste planeta para que livre toda e qualquer criatura da ideia de exterminar a sua existência.

No presente texto não iremos levantar dados, tampouco nos aprofundar nas questões que levam o sujeito a tentar colocar um ponto final em sua aventura na Terra. Nosso intento é o de apenas sugerir para que dirigentes, diretores e coordenadores se reúnam e procurem alguma forma de montar uma central de atendimento direcionada ao público que acalenta a ideia do suicídio.

Muitos dirão que há o atendimento fraterno e que os trabalhadores estão preparados para desenvolver tal atividade. Concordo. Há, sim, o sublime trabalho de atendimento fraterno. A própria USE Intermunicipal Bauru tem um grupo competente que promove cursos para diversas casas espíritas que querem implantar o atendimento fraterno em suas fileiras.

Todavia, refiro-me mais precisamente a oferecer algo que seja específico aos casos de suicídio. Seja atendimento por telefone, carta ou e-mail – muitas vezes a pessoa fica constrangida de comparecer pessoalmente ao local –, mas que os centros espíritas pensem seriamente na proposta de fornecer um atendimento personalizado ao público que intenta exterminar a própria vida, como uma espécie de marketing antissuicídio.

Pesquisas apontam: quem cogita em se matar não está apenas falando da boca para fora. Pode, sim, executar a sua triste pretensão.

E por qual razão abordar o assunto suicídio?

É que há algum tempo, por conta do trabalho na literatura espírita, venho recebendo e-mails de pessoas dispostas a partir desta para uma pior. Uma delas diz que não mais aguenta o peso da existência, ainda não se matou por causa dos pais. Outra diz que não aguenta mais a solidão, enfim, os relatos são os mais diferentes, mas que em seu bojo trazem a tristeza, insatisfação e falta de fé da criatura diante da existência.

Em face da procura, resolvemos pesquisar e trabalhar em uma obra sobre o suicídio. E pasmem: os números são assustadores, mas por algumas razões não os repassaremos aqui. Entretanto, fico a refletir: É preciso que façamos alguma coisa para exterminar ou diminuir o número de pessoas que chegam ao cúmulo do suicídio. O Espiritismo tem as respostas. Sua divulgação ajuda? Sim, e muito. Entretanto, pensemos seriamente em conversar e montar uma central para trabalhar especificamente com esses casos.

Como faremos? Questão de planejar. Dará trabalho? Com certeza. Todos sabemos que precisaremos de voluntários capacitados para identificar e lidar com o suicida em potencial. Teremos, portanto, de buscar conhecimento para qualificar nossos trabalhadores, assim como parcerias, e visitar instituições que já oferecem este tipo de trabalho.

Não resta dúvida de que a Doutrina Espírita tem muito a colaborar para que o ser humano possa ser feliz o tanto quanto é possível neste planeta, deixando de lado a nefasta ideia de atentar contra a própria vida.

Vários livros foram escritos sobre o tema. Destaco, pela linguagem simples e acessível, a obra “Suicídio, tudo o que você precisa saber”, de Richard Simonetti.

Porém, é preciso fazer mais. Pensemos seriamente nestas questões. O desafio está lançado e o Espiritismo é um eficaz antídoto para os males humanos que ameaçam jogar a criatura no fundo do poço.

        Wellington Balbo